A Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que a taxa de prevalência de depressão no Brasil seja de 5,8% a 12,7% da população. O índice coloca o país na liderança de incidência na América Latina e na quinta posição no ranking mundial. Conforme o estudo epidemiológico do Ministério da Saúde, pelo menos 15,5% dos brasileiros já relataram depressão ao longo da vida e a doença é a condição mental mais associada ao suicídio, além de recorrente e tender a cronificação.
Entre os principais sintomas estão a apatia, sensação de tristeza, autodesvalorização, culpa, falta de energia, oscilações de apetite, redução de libido e sintomas físicos difusos. A doença se caracteriza por ser multifatorial, ou seja, não tem uma causa específica isolada. Geralmente se apresenta como resultado de diversas causas. Genética, bioquímica cerebral e eventos traumáticos podem desencadear a doença, muito embora os fatores de risco sejam variados.
Para Marco Antonio Caldieraro, médico do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), esses dados devem ser analisados com cautela, uma vez que são baseados em uma estimativa de prevalência, podendo a margem de erro alterar, inclusive, as posições entre os países que compõem o ranking. “O que podemos afirmar com base nestes dados é que a depressão é um problema de saúde pública altamente prevalente em todo o mundo. De forma semelhante, a frequência do transtorno é alta no Brasil, com alguns dados indicando que pode ser levemente maior do que a média dos demais países”, pondera.
Subnotificação apesar do SUS
O Ministério da Saúde aponta, no entanto, que existe alta probabilidade de uma significativa subnotificação dos casos no país, o que pode tornar a realidade do transtorno ainda mais grave do que os dados revelam, apesar de existir um sistema público e gratuito de saúde. Para o especialista, o diagnóstico e tratamento de condições mentais no país esbarra nas limitações de atendimento em complexidade enfrentadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
“Os médicos de família ou clínicos gerais, podem diagnosticar e tratar casos mais simples de problemas psiquiátricos. Mas nos casos de diagnóstico ou tratamento mais complexo, muitos pacientes têm dificuldade para conseguir atendimento por profissionais especializados no SUS”, alerta Caldieraro. Além disso, a notificação de casos desta natureza não são compulsórios. Isso significa que mesmo quando o diagnóstico e tratamento são feitos corretamente não é garantia de que será informado ao Ministério da Saúde, o que aumenta o risco de subnotificação.
Outro fator determinante para a imprecisão de estatísticas relativas à doença, é a falta de conhecimento da população ao identificar os sintomas precocemente. “Pessoas com depressão podem ter dificuldade para perceber que seus sintomas são causados por um problema de saúde e assim, não procuram tratamento e não recebem um diagnóstico”, destaca.
Fatores de risco
A combinação entre predisposição genética, doenças físicas, ambiente social e familiar além de eventos traumáticos pode engatilhar o desenvolvimento de quadros depressivos em diferentes faixas etárias. Em crianças, falta de energia, apatia ou até características de irritabilidade podem ser indicativo de comportamento depressivo. “Sempre que houver uma mudança significativa no comportamento a criança deve ser avaliada. Quando o diagnóstico de depressão é feito, o tratamento deve ser iniciado o mais precocemente possível, para reduzir o impacto e aumentar a chance de melhora”, destaca o médico.
Um levantamento realizado pela Electronics Hub traz o Brasil na segunda posição do ranking mundial de maior tempo médio de telas por dia. Conforme a pesquisa, o brasileiro gasta mais da metade do seu tempo acordado em frente a uma tela, o que corresponde a 9h13min diários. Embora não haja relação diretamente causal entre o consumo excessivo de conteúdos digitais e a doença, esse comportamento contribui para o desenvolvimento de doenças emocionais, assim como doenças psíquicas favorecem a suscetibilidade a um maior tempo de tela.
“O uso excessivo de telas pode contribuir para o surgimento ou cronificação de problemas emocionais ao mesmo tempo que estes problemas podem levar o indivíduo a passar mais tempo diante das telas”, pondera o especialista.
Entre jovens, a exaustão e estresse do trabalho também podem contribuir para uma queda na qualidade da saúde mental, mesmo que não seja possível destacar um fator especificamente relacionado à labor que efetivamente cause depressão, segundo o psiquiatra. “Um trabalho insalubre, pode ser o desencadeante de um episódio depressivo. Mas não existe um determinante único no trabalho, como um número de horas trabalhadas por mês ou uma escala de trabalho específica”.
Por outro lado, a ausência de atividades é fator de risco para aparição de sintomas depressivos em pessoas idosas sem histórico da doença. “Tendência ao isolamento social, mal humor, pessimismo e foco constante em aspectos negativos podem ser sintomas de depressão. Porém, às vezes são tratados como aspectos normais do envelhecimento, retardando a busca por tratamento”, afirma.
De forma ampla, o ambiente social e familiar apresentam uma influência significativa para a presença da doença. Os dados do Ministério da Saúde destacam recortes de renda, gênero e raça, o que evidencia uma predominância maior da depressão em grupos de pessoas em vulnerabilidade social ou que historicamente são alvos de preconceito.
O SUS, em parceria com o Centro de Valorização da Vida (CVV), atende casos em que o paciente apresenta sintomas de ideação suicida. Nestes casos, é possível contatar o serviço gratuitamente pelo número 188. O atendimento pode ser solicitado de qualquer região do país tanto por telefone fixo como linhas móveis sem cobrança. A campanha Setembro Amarelo busca conscientizar sobre a complexidade da saúde mental além de prevenir casos de suicídio em todo o território nacional.