Mesmo que haja mecanismos de prevenção e tratamento, as hepatites virais lideram entre as doenças causadas por vírus com maior letalidade no mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS), estima que essas infecções causaram cerca de 3,5 mil mortes por dia em 2024. Em torno de 95% óbitos, ocorre por complicações de quadros de infecção pelos vírus HBV – responsável pela transmissão da hepatite B – e HCV – causador da hepatite C. A campanha Maio Vermelho, busca conscientizar a população sobre prevenção, diagnóstico e tratamento dessas infecções que comprometem as funções do figado. O avanço da doença pode causar cirrose ou câncer no fígado.
De acordo com o Relatório Global das Hepatites de 2026, desenvolvido pela OMS da conta de que as mortes decorrentes da hepatite C diminuíram 12% nos últimos 11 anos, assim como o número de infecções pelo vírus HBV, que caiu 32%. A entidade estabeleceu estratégias e planos de ação a nível global com o objetivo de eliminar as ocorrências até 2030. Apesar dos avanços, a perspectiva de erradicação de todas as vertentes da doença ainda está longe de ser alcançada.
O Ministério da Saúde estima que cerca de 700 mil brasileiros vivam com hepatite B ou C e, deste montante, aproximadamente 90% não tenha sido devidamente diagnosticados, uma vez que em muitos casos, a fase aguda da infecção não apresente sintomas. Os exames de sangue de rotina, geralmente não apontam as infecções por quaisquer dos vírus responsáveis pelas hepatites, para a identificação, é necessário que o profissional prescreva os indicadores anti-HBV e anti-HCV.
De acordo com o gastroenterologista do Hospital Moinhos de Vento, Alexandre Araújo, como parte de um esforço global para o controle dessas infecções, a identificação da doença pode ser feita no Brasil por testes rápidos, disponíveis gratuitamente nos postos da rede pública de saúde. “Caso o teste venha positivo, se faz depois a confirmação por um teste mais detalhado. O ideal seria, pra eliminação das hepatites, fazer um rastreamento universal em que praticamente todos os indivíduos fazem pelo menos um teste rápido, mas atualmente são feitas campanhas voltadas para grupos que tenham mais chance de contato com os vírus”, avalia o especialista.
Citado no relatório da OMS, o Brasil aponta mundialmente um exemplo positivo de avanço no combate a essas infecções, com resultados acima da meta prevista pela organização global. Além da disponibilização de testes rápidos, entre as estratégias brasileiras adotadas para o enfrentamento as hepatites, se destaca a cobertura vacinal contra a hepatite B em recém-nascidos, que chegou a 98% em 2025. Ainda conforme o relatório, a taxa de mortalidade relacionada a infecções pelo HBV caiu pela metade entre 2014 e 2024, alcançando a taxa de um óbito por 1 milhão de habitantes. Com relação à hepatite C, a queda foi de 60% no mesmo período com quatro mortes a cada 1 milhão de habitantes.
Cansaço, fadiga e dores
A infecção por hepatite tipo A pode ser identificada por sintomas semelhantes ao de uma gripe, como cansaço, fadiga, dores no corpo e febre baixa na fase aguda, seguidos por uma coloração amarelada na pele e nos olhos, urina escura, fezes esbranquiçadas na chamada fase ictérica. O período de incubação pode variar de 15 a 30 dias e, nesse período o vírus migra para o tecido do fígado causando inflamações nas células daquele órgão e, portanto, prejudicando a função hepática.
Em casos mais graves, é possível que o paciente apresente problemas de coagulação e confusão mental, necessitando de internação hospitalar. “A maioria dos quadros são leves. Como se trata de um quadro agudo, costuma ter uma recuperação plena em pouco mais de uma semana. Depois, gradualmente o indivíduo vai recuperando e estrutura do fígado da sua função”, adverte o especialista. Já a infecção pelos vírus causadores das hepatites B e C, pode ser silenciosa no início, o que dificulta a identificação da doença.
No Rio Grande do Sul, as ocorrências mais comuns são as hepatites A, B e C. A primeira está ligada a ingestão de água ou alimentos contaminados e se apresenta apenas como uma infecção aguda. As outras duas podem ser transmitidas por sangue contaminado, seja por relações sexual sem proteção, compartilhamento de objetos cortantes ou no parto, quando a gestante é portadora de um dos vírus e podem progredir para um estágio crônico.
“Pode ocasionar um quadro clínico agudo, que geralmente pode ser parecido com a hepatite A, mas eventualmente, ao passar essa fase aguda, o vírus pode permanecer no organismo e evoluir pra fase crônica”, adverte o especialista que salienta que essa evolução de quadro é mais comum quando o vírus é contraído no parto, a chamada “rota vertical” de transmissão. A evolução desses casos pode comprometer gravemente a função hepática causando, inclusive cirrose no indivíduo infectado.
Tratamento e prevenção
Com o avanço dos estudos voltados a essas doenças, atualmente o tratamento da infecção crônica é muito menos invasivo. Inicialmente, o medicamento era aplicado de forma injetável, provocando muitos efeitos colaterais e baixa taxa de eficácia. A partir de 2014, o tratamento padrão passou a ser por um novo medicamento aplicado por via oral que prevê a eliminação do vírus em até 12 semanas.
Por se tratar de uma inflamação que afeta o fígado, hábitos saudáveis como hidratação adequada, prática de exercícios físicos regularmente e evitar o consumo de álcool podem ajudar a prevenir quadros graves da eventual infecção por qualquer dos vírus causadores das hepatites. O cuidado com a higiene e o não compartilhamento de objetos que tenham tido contato com sangue de outras pessoas também pode reduzir a contração dos vírus. Pessoas que não possuam doenças que comprometam a imunidade tem mais chances de conseguir eliminar o vírus ainda na fase aguda da doença.
Na região Norte do Brasil também ocorre a hepatite D, que é provocada por uma dupla infecção, ou seja, pacientes que já são portadores do HBV podem ser reinfectados por um segundo vírus da hepatite. A dupla infecção culmina na hepatite D, que é mais rara. Além disso, em países dos continentes africano e asiático, também é possível encontrar ocorrências da hepatite E.