Celebrado todo dia 7 de abril, o Dia Mundial da Saúde de 2026 tem a valorização da ciência e da colaboração conjunta de esforços para a saúde global como temas definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Intitulada “Juntos pela Saúde. Apoie a Ciência”, a data dá início a uma campanha que celebra ainda a colaboração científica e seus resultados em prol da proteção na saúde de pessoas, animais, plantas e do planeta.
A diretora de Pesquisa do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), Ursula Matte, aponta que a pesquisa clínica é um esforço colaborativo. Além disso, ela cita que, cada vez mais, pesquisadores têm atuado em redes colaborativas a partir de troca de dados e informações.
“Os pacientes do HCPA não são iguais aos de Xangai, Luanda ou Londres, tanto do ponto de vista genético como em relação a fatores ambientais e estilo de vida. Por isso é importante que os estudos, para terem relevância, incluam participantes de diferentes locais. Além disso, redes de pesquisadores permitem a troca de experiências e a contribuição de profissionais com diferentes expertises”, detalhou.
O próprio HCPA é um exemplo de instituição de fomento à pesquisa, com cerca de 1,7 mil projetos em andamento. A diretora aponta ainda que, destes 1,7 mil, cerca de 300 projetos são de testes de novos medicamentos, especialmente em oncologia, hematologia, reumatologia e doenças raras.
“Esses estudos são importantes, pois, além de testar novos medicamentos, propiciam alternativas de tratamento ainda não disponíveis para toda a população. Mas a maioria dos projetos do HCPA é de estudos acadêmicos, vinculados à formação de recursos humanos e que partem de ideias originais de pesquisadores locais e contribuem para a geração de conhecimento e qualificação do atendimento de pacientes do SUS”, completou.
Tecnologia em prol da saúde e comunicação dos avanços
Em um contexto de sociedade onde cada vez mais a tecnologia faz parte da rotina da população, a diretora de Pesquisa do HPCA destaca ainda que, na área da saúde, é justamente a pesquisa clínica que respalda o desenvolvimento de novas ferramentas. Ela também reforçou a importância da tecnologia como aliada de pesquisadores no desenvolvimento da ciência.
“Um novo dispositivo médico ou mesmo uma nova ferramenta de inteligência artificial para uso em pacientes precisa ser validada através de pesquisas científicas. Ao mesmo tempo, a tecnologia contribui para o desenvolvimento da pesquisa, ao proporcionar maneiras mais eficientes de análise de dados, identificação de padrões ou mesmo da obtenção de dados, como é o caso do sequenciamento do genoma”, afirmou.
Além de avançar na área, Ursula Matte reforça que é preciso dar continuidade nos trabalhos de divulgação das pesquisas, engajando os pesquisadores no compartilhamento dos resultados com o público. “O Brasil tem vivido um momento muito positivo na comunicação científica. Há um grande número de divulgadores científicos de excelente qualidade, fazendo um trabalho muito sério e importante. Durante a Semana Científica do HCPA, estimulamos essa comunicação, propondo que os melhores trabalhos sejam apresentados em linguagem leiga e julgados por jornalistas ou divulgadores científicos”, concluiu.
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Pesquisadora “traduz” avanços técnicos da saúde
Com o advento das redes sociais, o consumo de informações referentes aos avanços científicos tornou-se mais acessível para a população. Muito disso ocorre por conta do trabalho de pesquisadores que conseguem divulgar tais estudos. Um desses casos é da biomédica, pesquisadora e professora da Escola de Saúde da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Mellanie Fontes-Dutra.
Nos últimos anos, seu perfil no Instagram se tornou um canal que ajuda a “traduzir” a parte técnica relacionada com a ciência na área da saúde para a população em geral, através de publicações leves e informativas. Mellanie explica que a paixão pela pesquisa e pela divulgação científica começou cedo, mas principalmente quando a biomedicina a permitiu investigar mais profundamente a ciência do corpo, das doenças e a busca por novos tratamentos.
“A divulgação de ciências veio muito naturalmente, pois o tanto que eu amava aprender, o mesmo tanto eu amava repassar adiante, seja ensinando, seja compartilhando sem nenhuma formalidade. Em 2020, outro marco importante me fez mudar a estratégia, do presencial para o virtual, em resposta à pandemia da covid 19, do distanciamento físico e da necessidade de buscar e compartilhar, de forma acessível e íntegra com a informação científica, dados sobre o SARS-CoV-2 e avanços científicos que estavam ocorrendo a partir de então, especialmente sobre as vacinas”, contou.
Para ela, o trabalho de comunicar os avanços da ciência é tão importante quanto o processo de pesquisa. “O processo do conhecimento não pode se dar por cumprido com a publicação do resultado em uma revista científica. É justamente aí onde ele começa: como eu farei isso chegar nas pessoas, especialmente àquelas que não estão no meio científico ou não são familiarizadas com essa linguagem técnica? É essencial que se pesquise e construa estratégias de divulgação e popularização de ciências. A compreensão e apoio da sociedade é fundamental para a defesa da ciência e para o combate à desinformação”, considerou.
Popularização da ciência e combate à desinformação
Para a pesquisadora, a divulgação científica, assim como a tradução desse conteúdo para a população, além de ajudar na popularização da ciência, também serve como forma de combate à desinformação. Mellanie aponta que essa necessidade ocorre em meio à crescente circulação de desinformações que impactam a confiança das pessoas na ciência.
Outro ponto destacado por ela é o desvio no esforço de pesquisadores ou grupos de pesquisa, que passam a se dedicar em revisões de publicações para combater a desinformação. “É algo que já foi destrinchado e submetido a escrutínio científico diversas vezes e pode influenciar o direcionamento de esforços, quando poderíamos estar investindo em outras perguntas ainda não respondidas pela ciência. A popularização da ciência ajuda muito nesse aspecto, e o letramento científico é um ponto de partida importante”, disse.
A pesquisadora defende ainda que é preciso “responsabilizar quem desinforma”, além de criar mecanismos que possam atuar na moderação das redes sociais com relação aos conteúdos de desinformação que circulam, assim como as contas que os promovem.
“Quem nos dá respostas e caminhos que podem ser benéficos para a sociedade é a ciência. Quem nos ajudará a obter respostas e caminhos para atravessar as atuais e futuras crises sanitárias, de saúde mental, do clima, por exemplo, é a ciência. Mas para executá-los, é preciso de tomadores de decisão que entendam a importância de e se baseiem em evidências científicas”, reforçou.
Para a diretora de Pesquisa do HCPA, Ursula Matte, a valorização da ciência passa também pelo fomento da credibilidade perante o público. “A falta de confiança na ciência, que se observa atualmente, é muito preocupante. A maioria dos avanços que resultaram em melhor qualidade de vida e melhores tratamentos em saúde são decorrentes de pesquisas. Avanços importantes em saúde pública têm sido questionados sem base científica com impacto negativo para a população”, concluiu.