Saúde

O que se sabe até agora sobre o caso suspeito de ebola investigado no RS

Paciente terá acompanhamento especializado e amostras de exames encaminhadas para análise laboratorial

Homem de 64 anos chegou ao Brasil após vir de Uganda, na África Oriental, país que passa por uma epidemia da doença
Homem de 64 anos chegou ao Brasil após vir de Uganda, na África Oriental, país que passa por uma epidemia da doença Foto : JOSPIN MWISHA / AFP

Está sendo investigado o caso de um paciente que apresentou sintomas compatíveis com o vírus ebola. Um homem, de 64 anos, deu entrada em uma unidade de saúde em Novo Hamburgo, nesta quarta-feira. Ele chegou recentemente ao Brasil após um tempo de permanência em Uganda, localizado na África Oriental. O país, além da República Democrática do Congo (RDC), passa por uma epidemia da doença, classificado pela Organização Mundial da Saúde como de importância internacional. Entenda o que se sabe sobre o caso suspeito:

Paciente terá acompanhamento especializado

De acordo com a prefeitura de Novo Hamburgo, desde o primeiro atendimento, todas as medidas de vigilância, assistência e biossegurança foram adotadas pelas equipes de saúde, e foi acionado o Centro Estadual de Vigilância em Saúde (CEVS/RS). A Secretaria Estadual da Saúde (SES) divulgou uma nota, na noite desta quinta-feira, informando que comunicou imediatamente o caso ao Ministério, e que todas as ações envolvendo protocolos de vigilância, assistência e biossegurança estão sendo conduzidas em articulação com autoridades municipais e federais.

A malária foi, até o momento, o principal diagnóstico identificado, com resultado positivo para Plasmodium falciparum. O descarte definitivo dependerá de resultado emitido pelo laboratório nacional de referência, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). De acordo com especialistas, no caso da malária, também pode ocorrer reagudizações de casos mais crônicos, com uma evolução mais lenta. No entanto, o paciente passou por Uganda, onde poderia ter se contaminado, por isso a suspeita.

Obedecendo protocolos clínicos específicos, o paciente será transferido ao Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre, onde terá acompanhamento especializado e amostras de exames encaminhadas para análise laboratorial. O complexo é referência na rede estadual e nacional de atenção ao ebola. No entanto, a diretora de atenção à saúde do GHC, Rosana Nothen, explicou que não há toda a estrutura necessária para realizar os exames e o tratamento. Portanto, as principais referências são o Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo, e Evandro Chagas, no Rio de Janeiro, hospitais de infectologia com laboratórios de nível máximo de proteção para lidar com fluídos corporais de pessoas com a suspeita.

Desde ontem, o GHC preparou a rota de chegada do paciente e foi gerado um fluxo exclusivo de atendimento para ele e outro eventual caso suspeito que seja notificado. "Ele tem um diagnóstico de malária confirmado, mas isso não impede que haja uma co-infecção também pelo ebola. A ideia é que a gente mantenha todas as nossas unidades, tanto ambulatoriais como hospitalares, prontas para, no caso de identificar alguma suspeita de febre hemorrágica, imediatamente fazer o isolamento e a proteção dos nossos funcionários", disse a profissional. Pessoas que tiveram contato com o paciente também serão monitoradas.

Procuradas, tanto a Secretaria de Novo Hamburgo quanto a SES não trouxeram atualizações sobre a situação.

Até o momento, não há necessidade de preocupação, apontam especialistas

A doença pelo vírus ebola é uma das mais importantes na África subsaariana, ocasionando surtos esporádicos em diversos países. O agente da doença é um vírus da família Filoviridae, do gênero Ebolavirus. Ele é transmitido por meio do contato de secreções corporais. Na última década, estão sendo registrados surtos de grandes proporções, principalmente com o Ebola Zaire, cuja prevenção há vacina e tratamento definido. No entanto, a maior preocupação – e motivo dos recentes surtos – é com o vírus Bundibugyo, o qual ainda não há vacina.

Fernando Spilki, virologista da Universidade Feevale, de Novo Hamburgo, afirmou que, até o momento, não há necessidade de uma preocupação maior com riscos epidemiológicos a partir do caso suspeito, que ainda terá os exames avaliados.

“O que está sendo feito é, realmente, uma precaução de um nível mais alto por parte das autoridades sanitárias, que está correto, mas não imaginamos de modo algum, pelo que se sabe, que esse vai ser o princípio da introdução do vírus no nosso horizonte", disse.

O profissional lembra que o diagnóstico de ebola tem sintomas cruzados com a malária, o que foi diagnosticado no paciente. O homem circulou em Uganda e, de acordo com relatos de profissionais que atuam no enfrentamento da doença no país, ainda não há a disseminação comunitária amplificada na região como no Congo, mas sim, transmissões dentro do ambiente hospitalar, ou seja, mais restringida. "Mas claro que, por precaução, deve ser observado. Existe a informação de que o paciente passa por uma doença grave, tem que ser observado tudo e realizado o diagnóstico confirmatório para afastar a possibilidade do ebola", acrescenta Spilki.

Alessandro Pasqualotto, chefe do Serviço de Infectologia da Santa Casa de Porto Alegre e Coordenador Científico da Sociedade Brasileira de Infectologia, também destacou que não há preocupação a nível mundial, porque, apesar da alta letalidade, a doença é mais fácil de ser contida.

"No nosso meio, eu me preocuparia muito mais com a Influenza, vírus respiratório que está transmitindo agora e mata muita gente, como idosos que não se vacinaram, do que o ebola", disse.

Salientou, porém, a necessidade de alerta para o monitoramento de pessoas provenientes dos países focos da epidemia e aos sintomas apresentados, para que as pessoas sejam isoladas e testadas.

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Vacinação

Diferentemente do Ebola Zaire, não há uma vacina específica para o vírus Bundibugyo. O protocolo é realizar tratamento de suporte, buscando evitar o agravamento das complicações, como desidratação e hemorragias. No final de maio, foi anunciado pelo diretor dos Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC), a agência sanitária da União Africana (UA), que uma vacina contra a cepa do vírus do ebola estará pronta até o fim do ano.

Casos suspeitos em outros estados

Um novo caso de ebola está sendo investigado desde quarta-feira em São Paulo, pela Secretaria Estadual da Saúde e pelo Centro de Vigilância Epidemiológica Professor Alexandre Vranjac (CVE-SP). A paciente é uma brasileira de 31 anos que esteve recentemente a trabalho na província de Kivu do Norte, no leste da República Democrática do Congo. Ela foi transferida para o Instituto de Infectologia Emílio Ribas (IIER), referência nacional para casos suspeitos ou confirmados da doença.

Segundo a secretaria, a paciente está estável e um teste rápido para malária já foi realizado, que deu resultado negativo. Até o momento, não há confirmação laboratorial de doença pelo vírus ebola. Esse é o segundo caso suspeito no estado. O primeiro caso, referente a um homem de 37 anos procedente da República Democrática do Congo, foi investigado e descartado para ebola.

Um caso também foi descartado no Rio de Janeiro. Um viajante belga, proveniente de Uganda, apresentou sintomas, mas teve resultado negativo após exames realizados em amostras pelo Instituto Oswaldo Cruz. Exames de saliva e urina deram negativo para ebola, e o diagnóstico foi posteriormente confirmado para malária.

Epidemia se espalha na República Democrática do Congo

A epidemia que assola o leste da República Democrática do Congo continua se espalhando, com um número crescente de casos e expansão para novas áreas geográficas, alertou a OMS nesta sexta-feira. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde congolês e disseminados pela OMS, havia 676 casos confirmados na quinta-feira, incluindo 136 mortes, ligados à rara cepa Bundibugyo, causadora da epidemia e para a qual atualmente não existe vacina ou tratamento autorizado.