Os próximos governos estadual e federal terão desafios pela frente, e um deles é na área da saúde. Para o vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers), Eduardo Neubarth Trindade, entre muitos gargalos, o principal deles está na superlotação das emergências, e, para resolvê-la, é necessário priorizar a regulação dos atendimentos a nível estadual.
Ao Correio do Povo, Trindade ressaltou que as pessoas se veem na obrigação de procurar as emergências por conta dos problemas de atendimentos no primeiro nível de atenção do Sistema Único de Saúde (SUS). “A gente cansa de ver 200% e 300% de ocupação, que é a pessoa sentada em uma cadeira quando deveria estar no leito. O sistema de forma eletiva não está funcionando”, destaca.
Para o vice-presidente do Conselho, o governo do Estado precisa resolver o problema da regulação, por meio do encaminhamento de pacientes. Já a médio e longo prazo, ele defende a necessidade de melhorar a atenção primária à saúde. “Se eu tiver um posto de saúde funcionando bem, ele vai resolver 80 a 90% para aquela comunidade. Só que, ao chegar no posto, a dona Maria e o seu João não têm médico, e vão procurar atendimento em uma emergência. Superlota as emergências. Acaba sendo um ciclo vicioso.”
Ele lembra que, atualmente, há 610 mil pacientes aguardando uma consulta na fila de espera do SUS para atendimento especializado, e que, dependendo do tempo de espera, a doença pode se agravar e tornar-se uma emergência hospitalar. “Como a gente não faz o diagnóstico no tempo adequado, de forma eletiva, o paciente tem a sua doença agravada. Ele acaba indo na emergência e, se eu trato ele com a doença avançada, em vez de ocupar o leito por dois ou três dias, ele acaba ocupando o leito por 10, 15, 20 dias”. Com os leitos ocupados, o paciente que estava com cirurgia marcada de forma eletiva precisa aguardar a liberação do paciente que veio da emergência, acrescenta.
"A superlotação é o sintoma. A gente tem que tratar a causa, uma regulação de leitos, seja tanto de consultas ambulatoriais quanto de leitos hospitalares, de uma forma mais efetiva. A gente precisa conseguir, de forma adequada, regionalizar os leitos."
Trindade também reforça que a tabela do SUS, sem importante atualização desde 2008, está defasada, um desafio para o governo federal. “O governo vai ter que melhorar a questão da remuneração da tabela do SUS ou fazer de algumas formas que os hospitais consigam funcionar”.
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Envelhecimento da população
O Rio Grande Sul é o estado brasileiro com maior índice de envelhecimento populacional. Trindade lembra que, do total da fila de espera do SUS, quase 1/3 são de pessoas com 60 anos ou mais. Ele reforça a importância de pensar na prevenção quando se trata de elaborar políticas públicas para o paciente idoso, não apenas para doenças orgânicas, mas para a saúde mental, que também acometem esse grupo.
“Não posso só atuar depois que já aconteceu o problema, tenho que atuar na prevenção. Tem que ter indicadores, como o quanto estou reduzindo a hipertensão naquele grupo de pacientes, o diabetes tipo 2. A atenção primária que tem que fazer a navegação desse paciente”.
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Cobertura vacinal
A cobertura vacinal também é um desafio para o Estado. Trindade defende que é necessário estimular a importância das imunizações obrigatórias e presentes no calendário, pensando na prevenção para diminuir o tempo de internação ou nas chances de desenvolver a doença.
“A poliomielite não é uma doença que a gente pode voltar a ter.Tem que estimular toda a população gaúcha a se vacinar e vacinar os seus filhos. Isso é extremamente benéfico. Chegamos a indicadores de 60% de cobertura vacinal, enquanto esse número teria que chegar idealmente a 100%”.
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Saúde mental
O vice-presidente do Cremers também lembra que está cada vez maior o número de pessoas com doenças mentais graves e abandonadas. Ele defende a necessidade de revisar o aumento do número de leitos psiquiátricos. “Estamos vendo o número de moradores de ruas com doenças mentais, algumas graves. Estamos vendo o aumento de dependentes químicos e não estamos vendo uma política pública efetiva que está conseguindo diminuir isso. As pessoas cada vez mais estão procurando tratamento ambulatorial, mas eventualmente vamos precisar de internações hospitalares quando necessário”.
Em relação à programas do governo federal voltados à atenção especializada, que têm como um dos focos diminuir as filas de espera, Trindade ressalta que eles precisam ser aperfeiçoados e permanentes, já que isso não resolve o problema a longo prazo.
“Eu tenho que ter uma solução realmente perene. Não adianta, eu esgotei a fila amanhã, só que, dali a 13 dias, volto a ter uma fila e não tenho estrutura para atender. Não adianta termos estruturas, muitas vezes, temporárias, tem que ter estruturas permanentes. Como vamos financiar nossos hospitais para conseguir atender àquela população? Não adianta só colocar uma uma carreta que vai resolver o problema aqui amanhã, depois essa carreta está em outra cidade e novos pacientes têm aquelas doenças”.
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Pensar a saúde como uma política de Estado
Para Trindade, muitas vezes, o governo estadual não conversa com o governo federal, e o sistema de saúde precisa funcionar em rede. “A Constituição de 1988 é muito clara sobre quais responsabilidades são do Ministério da Saúde, quais são da secretaria estadual e quais são das secretarias municipais”.
Ele defende que o Estado precisa seguir fiscalizando se os municípios estão utilizando recursos do SUS e se os postos de saúde realmente têm indicadores. “Sempre no Brasil se deu um hiper-estímulo à alta complexidade. Temos excelentes centros de transplantes. Mas estamos deixando de lado onde está principalmente a população, no posto de saúde”.
Trindade reforça que o Cremers tem se mostrado, em todos os governos, parceiro para ajudar a encontrar soluções. “A classe médica é, talvez, junto com os pacientes, mais interessada para que o sistema funcione. Mas ele tem que funcionar de uma forma adequada, hierarquizada nos seus vários níveis de complexidade.”