Saúde

Saiba o que explica o surto de sarampo em SP e quais são os riscos para o RS

Território gaúcho não tem casos confirmados da doença, e SES faz monitoramento

São Paulo concentra 41 casos; Amazonas e Rio de Janeiro também apresentam infectados
São Paulo concentra 41 casos; Amazonas e Rio de Janeiro também apresentam infectados Foto : OMS / Divulgação / CP

O Brasil registrou 52 casos importados de sarampo em 2026 até 5 de outubro, segundo o Ministério da Saúde. São Paulo concentra a maior parte das confirmações, com 41 casos, seguido pelo Amazonas, com dez, e pelo Rio de Janeiro, com um. O Rio Grande do Sul não tem casos confirmados da complicação este ano, e a Secretaria Estadual de Saúde (SES) monitora a situação.

Apesar dos registros, não há confirmação de circulação endêmica do vírus no país. O número de casos em solo brasileiro ocorre em meio ao avanço do sarampo em diferentes países das Américas. Os Estados Unidos concentram um dos principais surtos da região, com mais de mil casos registrados somente no estado da Pensilvânia. Em Nova York, o aumento das infecções levou as autoridades a declarar estado de emergência e ampliar as medidas de resposta.

Nas Américas foram registrados mais de 47 mil casos da doença em 17 países, incluindo 44 óbitos. É o maior número de casos registrados na região nos últimos 22 anos. Quatro países respondem por 95% dessas infecções: Guatemala (30,3 mil casos e 26 óbitos), México (12,2 mil casos e 17 óbitos), Estados Unidos (2,2 mil casos) e Peru (1,2 mil casos). Países de outras regiões do mundo também enfrentam surtos importantes. Em Bangladesh, no sul da Ásia, uma epidemia já provocou mais de mil mortes, principalmente entre crianças.

Motivos do surto

O sarampo é uma doença contagiosa altamente transmissível. Uma pessoa infectada pode transmitir o vírus para até 90% das pessoas suscetíveis que tenham contato próximo e não estejam imunizadas. Segundo o infectologista do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) e professor da Faculdade de Medicina da Ufrgs, Eduardo Sprinz, a pessoa já pode transmitir o sarampo mesmo sem apresentar os sintomas. “Cerca de três a quatro dias antes de ser sintomática, um paciente já pode infectar outros indivíduos não vacinados”, afirma.

Os principais sinais e sintomas do sarampo são manchas vermelhas (exantema) iniciando da cabeça em direção aos pés (direção cefalocaudal) e febre alta (acima de 38,5°C), acompanhada de um ou mais dos seguintes sintomas:

  • Tosse seca (inicialmente);
  • Nariz escorrendo (coriza);
  • Irritação nos olhos (conjuntivite não purulenta);
  • Pequenos pontos brancos na mucosa bucal (manchas de Koplik).

Algumas pessoas têm mais chances de desenvolver formas graves da doença ou complicações (como pneumonia, otite, encefalite ou até óbito):

• Crianças menores de 5 anos (especialmente bebês desnutridos ou não vacinados);

• Gestantes (com risco de parto prematuro ou baixo peso para o recém-nascido);

• Pessoas com imunidade comprometida (como pacientes oncológicos ou com HIV/imunossupressores);

• Adultos não vacinados (que costumam apresentar quadros mais intensos da doença).

Movimento antivacina impacta na cobertura do sarampo

A baixa cobertura vacinal aparece entre os principais fatores associados aos surtos de sarampo. Para o infectologista Eduardo Sprinz, o aumento do movimento antivacina potencializou essa alta transmissibilidade. “Junto com a Covid-19, vieram pessoas contrárias à vacinação, abrindo espaço para a maior circulação do vírus”, analisa.

Segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, a cobertura da vacina tríplice viral (SCR ou MMR), que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, caiu de 95,2% entre crianças do jardim de infância no ano letivo de 2019–2020 para 92,4% em 2025–2026. Já no Brasil, a cobertura vacinal apresentou uma recuperação significativa entre 2020 e 2026, saindo de baixos patamares e ultrapassando as metas recomendadas nos últimos anos. Em 2022, a 1ª dose da tríplice viral no país chegou a registrar cerca de 78,42%. Em 2025, esse percentual chegou a 93,10%.

Rio Grande do Sul monitora risco de reintrodução

No Rio Grande do Sul, não há registro de circulação do sarampo em 2026. O Estado já registrou casos importados nos últimos anos. Em 2024, uma criança que havia viajado para um país asiático teve diagnóstico confirmado. Em 2025, um paciente de 50 anos, com viagem recente aos Estados Unidos, também foi diagnosticado em Porto Alegre. Nos dois episódios, não houve formação de cadeia de transmissão.

A Secretaria de Saúde do Estado emitiu um alerta nesta semana. No informe é detalhado que a orientação da vigilância estadual é para que casos suspeitos sejam identificados rapidamente e comunicados imediatamente às autoridades de saúde. A partir da notificação, são iniciadas a investigação epidemiológica, a busca por pessoas que tiveram contato com o paciente e as medidas necessárias para evitar a disseminação do vírus.

Como funciona o esquema vacinal

A imunização é indicada para crianças a partir dos 12 meses, adolescentes e adultos de até 59 anos, conforme o histórico vacinal e as orientações do Calendário Nacional de Vacinação.

Segundo o infectologista, o imunizante interrompe a contaminação. “Pessoas vacinadas não correm riscos. A vacina protege de 95% a 98% da população. Com esse contingente, você quebra a cadeia do vírus, fazendo com que ele não circule nos outros 5% não imunizados”, afirma.

Vacinação combate o sarampo | Foto: Paulo Pinto / Agência Brasil / CP

A segunda dose é indicada aos 15 meses, com a vacina tetraviral ou outra estratégia prevista no calendário vigente. Pessoas de cinco a 29 anos sem vacinação prévia devem receber duas doses, com intervalo mínimo de 30 dias entre elas. Já para adultos de 30 a 59 anos não vacinados, a recomendação é de uma dose.

Quem não deve tomar a vacina

  • Gestantes;
  • Pessoas com imunossupressão grave (como em casos de uso de quimioterapia antineoplásica, infecção pelo HIV com comprometimento imunológico grave, uso de medicamentos em doses imunossupressoras ou transplantados);
  • Indivíduos com histórico de reação alérgica grave (anafilaxia) a componentes da vacina, como neomicina;
  • Crianças com menos de seis meses.

Ações de combate ao sarampo

Neste ano, o governo federal realizou quatro grandes mobilizações de vacinação. Mais de 3,8 milhões de doses foram aplicadas em São Paulo e cerca de 192 mil no Amazonas. A vacinação é oferecida gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e constitui a principal medida para prevenir a reintrodução e a disseminação do vírus no país.

Na região da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, o Ministério da Saúde também intensificou as medidas de resposta após a confirmação de casos importados. Em São Paulo, a imunização foi reforçada na capital e nos municípios de Guarulhos, São Bernardo do Campo e Santo André.

O Ministério da Saúde também vem orientando estados e municípios a ampliarem a identificação de casos suspeitos e as ações de imunizações. Além da vacinação, as equipes de saúde realizam busca ativa, investigação de casos suspeitos, acompanhamento de contatos e bloqueio vacinal. A estratégia também inclui a chamada dose zero, destinada a crianças de seis a 11 meses e 29 dias. Essa aplicação é adicional ao esquema de rotina, que prevê doses aos 12 e aos 15 meses de idade.