As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no Brasil, sendo responsáveis por 30% de todos os óbitos ocorridos em território nacional, de acordo com dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Em média, a cada 90 segundos, uma pessoa é vítima de doenças relacionadas ao órgão, apenas no Brasil, totalizando cerca de 279 mil mortes em 2026.
O Setembro vermelho traz luz sobre a alta incidência de doenças desta natureza, conscientizando a população sobre hábitos que podem evitar o desenvolvimento destas condições. A campanha é alusiva ao Dia Mundial do Coração, celebrado no dia 29 de setembro. O Rio Grande do Sul, é o segundo estado brasileiro com maior taxa de mortos por complicações cardíacas por 100 mil habitantes, ficando atrás do Rio de Janeiro.
Para o diretor-técnico do Instituto de Cardiologia de Porto Alegre, Luciano Ceolin Rosa, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), além do recorte de renda média são fatores determinante para a correta análise destes dados, uma vez que locais com maior renda per capita tendem a ter uma maior expectativa de vida, o que, em muitos casos, favorece o aparecimento de determinadas causas para morte em detrimento de outras.
“A medida que o mundo foi se desenvolvendo, as pessoas começaram a viver mais e começaram a adotar um estilo de vida mais sedentário, às vezes uma alimentação com mais aporte de calorias, o que favorece não morrer de fome ou infecção, mas favorece obesidade e hipertensão, que potencializam a doença cardiovascular”, defende o especialista.
Além disso, países com a renda média mais elevada têm tido experiências bem sucedidas para o controle da incidência de casos destas doenças. Desta forma, a principal causa de morte nessas nações passa a ser o câncer ou doenças neurológicas degenerativas. Enquanto isso, países com baixa renda média apresentam índices de mortalidade elevados para doenças infecciosas, o que também reflete em uma expectativa de vida reduzida.
Taça de vinho
A relação entre esses fatores está associada ao acesso a tratamentos de infecções e alimentação adequada, além de bons índices de qualidade de vida, que permitam que as pessoas pratiquem exercícios físicos regularmente e mantenham o monitoramento da saúde em dia. No caso brasileiro, um mito presente no senso comum também dificulta o combate a essas doenças: a ideia de que o consumo de bebidas alcoólicas regularmente em baixa quantidade traz benefícios à saúde.
“Consumir álcool, mesmo que em pequenas quantidades, tem que ser encarado como uma coisa recreativa e que, pra algumas pessoas, não é recomendado de modo algum. As pessoas precisam entender que aquela ideia que ‘beber duas taça de vinho faz bem’, é mito e não um ato de promoção à saúde”, destaca o cardiologista.
Muito embora os principais fatores de risco para o desenvolvimento de doenças cardíacas sejam genéticos, ocorrência de hipertensão, diabetes ou índices elevados de colesterol, o especialista argumenta que a qualidade da alimentação do paciente é determinante para o desenvolvimento de doenças cardíacas.
“Se a pessoa não tem um risco genético alto, a alimentação ruim pode fazer essa pessoa ter doença cardiovascular. Se a pessoa tem um risco genético pré-estabelecido, a alimentação vai aumentar em muitas vezes esse risco”, destaca o especialista alertando para refeições ricas em ultra-processados e gordura, ou que favoreçam doenças que são comorbidades para condições cardíacas, como hipercolesterolemia, dislipidemia, diabetes e hipertensão. O tabagismo também é considerado comportamento de risco para essas doenças.
O melhor exercício
Em linhas gerais, o especialista defende que hábitos saudáveis estão entre as estratégias mais eficazes para alcançar a redução da incidência deste tipo de doenças. Estes hábitos, quando empenhados de forma consistente, aumentam a qualidade do envelhecimento. A atividade física regular é um dos hábitos capazes de promover a saúde, regular o organismo e fortalecer a capacidade do corpo.
Entretanto, o especialista adverte que isso não significa que todas as pessoas devam praticar uma atividade específica, ou desenvolver um estilo de vida atlético. O ideal é que, por semana, uma pessoa dedique cerca de 150 minutos para alguma atividade física, mesmo que simples. Isso é o equivalente a 25 minutos de exercício por dia, com um dia de repouso por semana.
“Fazer uma atividade aeróbica de 150 minutos por semana ou três séries de caminhada rápida de 50 minutos já tem um grande efeito terapêutico. Outra medida de atividade física é a contagem de passos diários. Caminhar 7 mil passos por dia tem uma redução significativa de doenças cardiovasculares”, explica o especialista, ressaltando que “o melhor exercício é o que a pessoa consegue fazer”.
Para o cardiologista, a promoção de uma cultura de bem-estar, que concilie atividade física e rotina, é benéfica uma vez que incentiva mais pessoas a buscarem uma modalidade adequada a sua realidade. “Essa popularização da atividade física é uma coisa que pode ajudar. Só é necessário cuidar assim algumas atividades físicas muito intensas ou quando se busca performances competitivas caso o paciente tenha doença pré-existente”, pondera. Nestes casos, é recomendada a realização de exames e acompanhamento médico para orientar a prática esportiva.
Sintomas
De acordo com o médico Luciano Ceolin Rosa, o paciente que notar um desconforto atípico ao fazer esforço e alívio imediato em repouso, podendo ser falta de ar, dor no peito ou cansaço acentuado, é recomendado investigar. O quadro pode ser indicativo de alguma condição cardiovascular, principalmente se o paciente tiver pai, mãe ou irmão com histórico de evento cardiológico grave antes dos 60 anos.
O monitoramento da pressão e a realização de consultas e exames laboratoriais anualmente também podem ajudar a identificar cedo a pré-disposição para o desenvolvimento de doenças cardíacas, já que comorbidades como “um quadro diabético ou colesterol alto não dão sintomas, logo, se não faz exame não tem como saber se tem esse tipo de doença”.
Os sinais podem variar de pessoa para pessoa. Em muitos casos, uma crise cardiovascular pode se apresentar através de uma dor no meio do peito ou nas costas. Algumas vezes o desconforto pode ser notado na mandíbula ou se irradiar pelo braço. Nestes casos, é recomendado buscar atendimento com médico especializado para investigar a razão da dor.