Segundo o anunciado, Estados Unidos e Irã assinaram ontem o acordo para pôr fim ao conflito que os dois países vêm travando. No entanto, pairam ainda muitas dúvidas, inclusive sobre se o documento será mesmo respeitado. Há uma questão fundamental colocada pelo Irã que não se vê perspectiva de ser cumprida. Refere-se ao término das ações de Israel no Líbano. A dúvida se alicerça no fato de o Irã ter condicionado a assinatura do acordo à interrupção de todas as ações de Israel no Líbano. Por sua vez, o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, deixou claro que Israel irá permanecer não só no Líbano, mas, também na Síria e em Gaza.
ABRANGÊNCIA
O Irã acusa Israel de violar 84 vezes o acordo de cessar-fogo feito com o Líbano. O fato é que o acordo foi feito por Israel com o Líbano e não envolvia o Hezbollah. E como o grupo fundamentalista islâmico continuou atacando Israel, Tel Aviv seguiu dando o troco. E o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu chegou a dizer que Israel não tem nada a ver com o acordo que está sendo elaborado entre Estados Unidos e Irã.
Então, a questão que fica é se o Irã vai cumprir seu anúncio de não assinar o acordo caso Israel siga atacando no Líbano ou se irá mudar de opinião. Afinal, o regime dos aiatolás, apesar de ser atacado, já conquistou muitas coisas nesta guerra. E duas delas dizem respeito a recursos financeiros. Antes da guerra não se falava nos recursos financeiros do Irã que estavam congelados no exterior. Pois agora se fala na liberação desse montante, que gira em torno de 25 bilhões de dólares, como uma das cláusulas.
ESTREITO
Outra coisa que não se falava antes do conflito é sobre o bloqueio do Estreito de Ormuz. Ação tomada pelo Irã e que vai passar a lhe render dividendos. Trump diz que não haverá cobrança de pedágio para os navios que transitarem pela passagem marítima. O Irã concorda, diz que não haverá pedágio, apenas a cobrança de uma taxa pelos serviços administrativos, proteção ambiental e outras coisas. Ou seja, é só uma questão semântica, porque a cobrança haverá.
Então, o Irã tem motivos para assinar o acordo, mesmo com a continuidade dos ataques israelenses no Líbano. Afinal, além desses lucros monetários, saúda a manutenção do regime, que Israel e EUA queriam derrubar. A avaliação era de que, com o ataque ao regime, os segmentos opositores dentro do país ganhariam força para derrubar os aiatolás. Pois até nisso aconteceu o contrário. Os opositores, pelo menos parte deles, acabaram dando força aos governantes, diante do fato de o país estar sendo atacado por potências externas.
TEMPO
O Irã também está vendo permanecer o seu sistema de mísseis de longo alcance, que os atacantes queriam destruir. E consegue “empurrar com a barriga” a questão nuclear. Segundo o professor de Relações Internacionais e pesquisador de Harvard Vitélio Brustolin, o Irã já tem Urânio enriquecido a 60%. Deu até o volume, 441 quilos. “Não tem utilidade civil Urânio enriquecido nesse teor. O Urânio para atividades civis vai até 20%, para uso medicinal”, que é o que o Irã insiste em dizer, sobre a finalidade de ter o produto. “Também não se sabe o que será feito com as demais 11 toneladas de Urânio enriquecido em outros teores que o Irã possui”, acrescenta o professor.
FUTURO
É de se duvidar que em 60 dias – período estabelecido para as negociações – se chegue a um consenso sobre o programa nuclear iraniano. Vale ressaltar que isso já foi objeto de um acordo, firmado, durante o governo Obama, entre a nação persa e Estados Unidos, com mais China, Rússia, Reino Unido, França e Alemanha. Ou seja, os cinco países membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e mais a maior potência econômica da Europa. Quando assumiu o seu primeiro mandato, Trump rompeu o acordo, porque foi constatado pelos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica, órgão da ONU, que os limites estabelecidos para fins pacíficos não vinham sendo respeitados. E o encaminhamento era em direção à bomba atômica. Com este precedente, é de se perguntar se haverá confiança para alguma negociação futura que impeça o avanço nuclear iraniano?