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35 anos do transplante hepático, referência nacional

Por CLAUDIO AUGUSTO MARRONI e AJÁCIO B. DE MELLO BRANDÃO, médicos, fundadores do Grupo de Transplante Hepático de Adultos na Santa Casa de POA

Em 1991, Marilene, de 24 anos, portava uma doença hepática crônica irreversível com uma condenação à morte em um prazo variável, não muito longo. Sem terapias capazes de interromper a progressão da doença; tratamentos disponíveis apenas de controle de complicações, cada vez mais graves, com resultados apenas parciais e temporários.

À época, uma equipe de cirurgiões, hepatologistas, clínicos, anestesiologistas, enfermeiros e médicos-veterinários dedicava-se a uma intensa pesquisa experimental no Hospital Veterinário da Ufrgs com transplantes hepáticos em cães e suínos. Foram feitos minuciosos estudos de técnicas cirúrgicas, tratamentos medicamentosos e os protocolos imunossupressores necessários para viabilizar um programa clínico de transplante hepático. Finalmente, em 15 de junho de 1991, concretizou-se um marco histórico para a medicina gaúcha: a realização do primeiro transplante hepático em adultos no Estado na paciente Marilene. Hoje, aos 59 anos, ela desfruta de uma vida plena. Tornou-se uma das primeiras mães pós-transplante hepático e constituiu sua família.

Seu filho Rogério Giovani, adulto, acompanha a trajetória de superação e sucesso, testemunhando o impacto transformador que o transplante teve em sua vida, simbolizando a vitória daquela conquista técnica, demonstração concreta de que doenças hepáticas até então consideradas incuráveis poderiam ser tratadas com sucesso, devolvendo aos pacientes a esperança de uma vida saudável, produtiva e integrada à sociedade.

Após 35 anos, essa terapêutica salvadora segue sua trajetória de crescimento: mais de 2000 transplantes realizados na Santa Casa, a grande maioria pelo seu Grupo de Transplante Hepático de Adultos. Os resultados de excelência e sobrevida prolongada consolidam a instituição como uma referência nacional em transplante hepático. Porém, ele não se resume à substituição de um órgão doente por outro saudável.

Trata-se de um processo extremamente complexo, que exige a formação rigorosa de profissionais de diferentes especialidades, infraestrutura hospitalar altamente qualificada, apoio institucional e governamental permanente, recursos tecnológicos avançados, logística eficiente e dedicação incondicional das equipes envolvidas. A doação de órgãos é o alicerce de todo o sistema. Sem doação, não há transplante. Ao celebrarmos os 35 anos desse pioneirismo no RS, celebramos também a ciência, a dedicação, a solidariedade e a vida. Essa vitória pertence a todos.