No mundo organizacional, repetir ações e esperar resultados diferentes é irracional. Na última semana, a omissão do VAR na não marcação de um pênalti em um jogo recente do Grêmio revoltou torcedores, jogadores e dirigentes, mobilizou a imprensa e o mundo esportivo. Mas o problema vai além e reflete uma crise técnica que é nacional.
O futebol brasileiro representa 0,72% do PIB nacional, mais de R$ 52,9 bilhões (fonte: ECOA UOL, dados de 2019), com pelo menos 100 milhões de torcedores ligados a clubes da Série A. Trata-se de poderosa cadeia produtiva que gera emprego, renda e impostos. Para mantê-la viva, a confiança entre torcedores, clubes, entidades, árbitros e VAR é essencial. Sem ela, o sistema colapsa.
O desconforto com o futebol local foi evidente no episódio do VAR, o que provoca reflexões para o mundo organizacional. A primeira pergunta que vem à mesa é sobre o nível da capacitação técnica dos profissionais envolvidos, notadamente o árbitro e a equipe do VAR.
Como qualquer jogador, o árbitro e o VAR estão sujeitos a erros, mas falhas grosseiras sempre são refutadas. Para mitigar equívocos, o sistema precisa evoluir e isso só acontece com investimento pesado em conhecimento. Um mecanismo interessante é a adoção da ferramenta do benchmark, que significa aprender com os melhores da classe. Adotar esse mecanismo permite comparar, permanentemente, práticas e desempenho com organizações de referência, identificando oportunidades de melhoria e inovação para maior eficiência e competitividade. E isso é algo que se espera da CBF, por exemplo.
Existem bons exemplos lá fora. A Premier League inglesa é referência global em arbitragem, com decisões mais ágeis. O tempo médio de revisão, por exemplo, caiu para 40 segundos. Inspirada nesse modelo, a La Liga espanhola busca mais transparência, adotando uma comissão de clubes, um comitê técnico independente e a divulgação dos áudios do VAR. Mas essa prática deve ser contínua, não apenas em crises.
O futebol é um esporte global e seus dirigentes, árbitros e profissionais do VAR devem observar de modo sistêmico as melhores práticas internacionais num processo contínuo, estruturado e monitorado. Afinal, erros são como unhas: precisam ser corrigidos o tempo todo. Momentos de tensão exigem estudar as falhas. E humildade para refletir profundamente sobre as lições aprendidas. É o bom – talvez único – caminho para fazer diferente.