Nos filmes e séries true crime, gênero em alta no momento, crimes são resolvidos com truques que parecem mágica. Na ficção, o trabalho de peritos médicos-legistas é exaltado. Já na vida real, a situação é diferente. Embora sejam cruciais para desvendar delitos, no Rio Grande do Sul, observamos o interesse pela carreira estadual diminuir, devido a baixas remunerações e à falta de estrutura digna de trabalho.
Em 2018, o Instituto-Geral de Perícias trabalhava com 40% do efetivo necessário de médicos legistas. O último concurso público foi em 2017 – a perícia médico-legal vem sendo esquecida nas frequentes nomeações de servidores para a segurança pública. Além disso, desde o último concurso, 50% dos peritos médicos-legistas se exoneraram ou não assumiram. A carreira de médico legista no RS é uma das mais desvalorizadas do País. Se comparado ao Santa Catarina, o teto da carreira gaúcha é quase metade do vencimento pago pelo governo vizinho. Isso faz com que postulantes ao cargo se desmotivem e procurem prestar concurso em outros estados, aumentando a defasagem na carreira.
Quem sofre, como sempre, é a população. Nos rincões do Estado – e mesmo nas regiões mais povoadas –, não há estrutura nem quadro suficiente para prestar os serviços. Assim, enquanto assimilam a perda de entes queridos, famílias precisam lidar com entraves burocráticos, longos traslados e esperas para liberação do corpo.
Um caso emblemático ocorreu em Severiano de Almeida, cidade no noroeste do RS. Além de lidar com a morte prematura de um adolescente, a família teve de esperar o transporte do corpo até Passo Fundo para que a necropsia pudesse ser realizada e, depois, retornar à cidade de origem. Quase 400 km de trajeto nessa saga.
A negligência não é de hoje. Com parcos recursos humanos, salários pouco competitivos e estruturas sucateadas, não surpreende que o interesse pela profissão esteja minguando. Resta continuar clamando para que as autoridades competentes tomem atitudes imediatas, com revisão do plano de carreira dos peritos médicos-legistas, além da implementação de políticas de valorização profissional.