As fotografias destes dias mostram tijolos amontoados, telhas partidas, madeira exposta e uma escavadeira sobre o que, até pouco tempo, eram paredes. Ao fundo, ainda de pé, o trecho da fachada verde e branca que gerações de porto-alegrenses aprenderam a reconhecer na Rua Dezessete de Junho. O antigo quartel do 1º Batalhão de Polícia Militar está sendo demolido.
Quem serviu ali demora o olhar nessas imagens. Não é apego à alvenaria. Um quartel é onde se aprende o ofício, onde o policial se apresenta, assume e entrega o serviço durante anos e de onde sai diariamente para cumprir sua missão. Com o tempo, aquele endereço passa a integrar a biografia de quem o frequentou. O 1º Batalhão nasceu pelo Decreto nº 384, de 21 de outubro de 1892, sendo a unidade operacional mais antiga da Instituição. Chamou-se 1º Batalhão de Infantaria, depois Batalhão de Caçadores e Batalhão de Guardas, até receber, em 1968, a denominação atual. Mudou de nome, mas não de identidade. Permaneceu conhecido pela alcunha conquistada em combate: Batalhão de Ferro.
O nome nasceu em Buri, durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Em 26 de julho, o tenente-coronel Aparício Gonçalves Borges comandava a unidade sob intenso fogo. Ferido mortalmente por uma rajada disparada a cinquenta metros, caiu sem uma exclamação de dor. O cabo corneteiro Timóteo Alves da Rosa, que o protegia, também foi atingido e morreu sobre ele. O Major Camilo Diogo Duarte assumiu o comando e sustentou o combate por horas. Aparício morreu no dia seguinte, sendo promovido a coronel post mortem.
O relato da campanha registrou que o elemento férreo parecia estar “nas veias de cada combatente” e chamou aquela tropa de homens de ferro. Antes de ser tradição, o nome foi testemunho. A geração seguinte tratou de preservar essa memória. Em 1934, foi inaugurado o monumento a Aparício Borges e ao corneteiro Timóteo, em frente ao quartel. Em 1985, o Estandarte Histórico incorporou o listel “Batalhão de Ferro” e cinco estrelas de ouro, representando as batalhas da campanha de 1932.
É diante dessa história que se olha a obra atual. A nova sede virá, com preservação da fachada histórica e previsão de espaço para fotografias, cartas e objetos do Batalhão. Mas o verdadeiro desafio começa depois da inauguração: memória não se guarda apenas em vitrines; transmite-se. Chegará o dia em que ninguém terá servido naquele antigo quartel. Restarão fotografias e relatos. Foi assim também com o histórico casarão do 9º BPM, o Batalhão Voluntários da Pátria.
Por fim, cabe registrar que quem passou a vida na Brigada Militar também compreende o outro lado dessa imagem. Prédios envelhecem. Mas o certo é que o velho casarão, histórico e forte, doado ao Estado em 1932, quando passou por uma grande reforma que por certo foi operada pelas mãos calejadas dos antigos brigadianos, sempre foi o balizador de referência para os habitantes da zona sul da Capital e resistiu aos tempos, incluindo dois incêndios e as grandes enchentes de 1941 e 2024, mas infelizmente não resistiu à modernidade. Assim, nenhum de nós recebeu essa história por acaso. Alguém, antes, teve o cuidado de contá-la e preservá-la.