A Polícia Rodoviária Federal divulgou um balanço, logo depois do Carnaval, indicando que o feriado foi o mais violento nas estradas desde 2020. Em seis dias, 130 pessoas morreram – 50% a mais do que no ano passado –, vítimas de “acidentes”. Entre aspas, porque, se sabe, que em boa parte dos casos o que ocorre não poderia ser classificado exatamente como acidente, mas como negligência ou imperícia.
Se deslocarmos um pouco a régua e formos pegar os primeiros 31 dias do ano, o movimento não foi diferente. Aliás, em Porto Alegre, foi pior. Conforme dados obtidos em levantamento junto à página de transparência da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), a média dos nove anos anteriores indicava 4,6 mortes no trânsito durante o mês de janeiro. Esse padrão se manteve mesmo durante a pandemia, quando os números não foram muito diferentes do que nos anos anteriores. Este ano, foram 11 vidas perdidas. O aumento é de quase 150%. Isso mesmo: 150%. Se o recorte for só a comparação com 2025, chega a 120%, mostrando que houve um avanço significativo com qualquer base de comparação.
O que houve de diferente este ano? Você deve estar pensando que não pode já ser resultado da precarização da formação de condutores. E, de fato, ainda não é, embora seja bem importante considerar que este efeito AINDA não chegou. O que já está em curso, porém, é algo menos visível e igualmente poderoso: a assimilação simbólica da mensagem transmitida pela medida.
Normas não operam apenas pela sua aplicação concreta, mas pelo que comunicam. Quando o Estado endurece exigências, isso reforça a percepção de risco, responsabilidade e vigilância. Ao contrário, quando flexibiliza, ainda que com justificativas administrativas ou econômicas, pode produzir o efeito inverso: a redução subjetiva da sensação de controle e da gravidade associada à infração.
Ao perceber sinais de flexibilização, parte dos indivíduos passa a interpretar que os padrões anteriores já não são mais tão essenciais ou prioritários. Não como uma decisão consciente e deliberada, mas como um rebaixamento gradual do estado de alerta, de vigilância interna que sustenta o comportamento prudente.
No trânsito, qualquer redução coletiva na percepção de responsabilidade tem consequências cumulativas. Não é necessário que todos se tornem mais imprudentes. Basta que alguns se tornem ligeiramente menos cautelosos, menos atentos ou mais confiantes na própria margem de erro. O resultado aparece nas estatísticas — e, tragicamente, nos obituários.