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A monumentalização da periferia como reinvenção urbana

Por Marcello Beltrand, jornalista e mestre em Administração

Historicamente, os centros urbanos concentraram, no seu marco zero, poder político, religioso e comercial, da ágora grega ao fórum romano, passando pelas praças e castelos medievais. Hoje, com mudanças aqui e ali, a ideia de um núcleo central ainda predomina. As cidades cresceram privilegiando as áreas centrais com equipamentos públicos robustos, enquanto as periferias recebiam estruturas menores e menos integradas.

Em Medellín, Colômbia, esse modelo foi rompido de forma sistêmica, intencional e racional. Encravada entre montanhas e repleta de favelas densamente povoadas, a cidade fez da mobilidade um vetor de transformação. Metrô, VLTs, BRTs e longas linhas de teleféricos conectam periferia e centro, encurtando distâncias físicas e sociais.

O conceito de periferia monumentalizada ganhou forma: espaços funcionais — bibliotecas-parque, distritos de inovação, escadas rolantes em morros e centros culturais — ressignificaram territórios antes estigmatizados. A transformação urbana virou motivo de orgulho coletivo.

A primeira vez que ouvi esse conceito da monumentalização da periferia foi em 2008, na voz do urbanista catalão Jordi Borja, responsável pelas transformações de Barcelona pré-Olimpíada de 1992. Convidado pelo então presidente da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, vereador Sebastião Melo, Borjá veio da Espanha para defender, no evento “Porto Alegre uma visão de futuro”, essa estratégia como forma de democratizar o espaço urbano. Para ele, é essencial criar múltiplas centralidades que valorizem a periferia com serviços públicos de alta qualidade, identidade cultural e sentimento de pertencimento. Cidadãos que não se orgulham de seu território primário não têm motivo para cuidar do resto da cidade.

Medellín se reinventou com base na quádrupla hélice: sociedade, universidades, governo e empresas. Um exemplo emblemático, dentre dezenas, é o incrível parque aquático, segundo maior da América do Sul, cujo uso intensivo pela população revela alto engajamento comunitário.

Os idealizadores da transformação de Medellín têm método: a mobilidade garante proximidade, os espaços devem ser abertos e visíveis (porosidade) e o termo gratuidade dá lugar a livre acesso, reforçando a pertença. São práticas que fortalecem a confiança do cidadão na cidade e fundamentam a monumentalização como motor da reinvenção da urbe.