Em recente reunião do Conselho Gestor do Núcleo de Gestão Estratégica do Sistema Prisional (Nugesp), uma frase dita por um de seus membros resumiu a atual falência da segurança pública gaúcha: "A Polícia Civil prende 60 pessoas num dia e quer que o Nugesp tenha vagas". A mensagem do Estado é clara, beirando o escárnio: a Polícia está, na prática, proibida de prender. A nossa eficiência institucional em retirar criminosos das ruas tornou-se um "incômodo logístico" para uma gestão prisional que já ruiu.
Criado para acabar com a vergonha de presos amontoados em viaturas, o Nugesp hoje é o epicentro de um novo colapso. Sendo a porta de entrada para Porto Alegre e municípios das regiões Metropolitana, Vale do Sinos, Paranhana, Caí e Carbonífera, quando essa engrenagem trava, a segurança de metade do Estado paralisa. E ela travou. Retornamos ao cenário medieval de delegacias superlotadas e viaturas servindo de celas provisórias no Palácio da Polícia. Para agravar, o Estado nem sequer garante a alimentação básica desses acautelados.
A desordem administrativa e de segurança chegou a níveis alarmantes em episódios recentes: um preso conseguiu fugir do pátio do Nugesp mesmo algemado a outros detentos. Além disso, um criminoso perigoso, preso em flagrante pelo Deic, com arma restrita, foi solto pela porta da frente devido a um equívoco da Polícia Penal, antes mesmo da audiência de custódia.
Enquanto o sistema rui, delegados e agentes da Polícia Civil sofrem o inaceitável desvio de função. Afastados das investigações e do desmantelamento de facções, são obrigados a atuar como carcereiros em ambientes sem a mínima estrutura. Ao mesmo tempo em que o sistema de segurança dos gaúchos colapsa, o governador do Estado abandona a população à própria sorte para atender o seu projeto de poder, que faliu antes mesmo do pleito.
A Associação dos Delegados de Polícia do RS (Asdep-RS) não assistirá a esse retrocesso calada. Delegacia não é presídio e Policial Civil não é carcereiro. Se o Estado é incapaz de gerenciar suas vagas, que assuma sua ineficiência pública. A sociedade exige segurança e nós exigimos respeito às nossas prerrogativas. A Polícia Civil continuará cumprindo seu dever de prender, mas não carregará nas costas a irresponsabilidade de um governo que só pensa em projetos de poder.