Quando falamos em inclusão, quase sempre pensamos nas dificuldades que precisam ser superadas. Mas incluir também significa reconhecer potencialidades. Esse é o propósito do Agosto Laranja, mês dedicado à conscientização sobre as pessoas com Altas Habilidades e Superdotação (AH/SD).
Estamos falando de crianças, adolescentes e adultos com intensa curiosidade, criatividade e formas singulares de aprender e compreender o mundo. Pessoas que, quando identificadas e estimuladas, podem desenvolver plenamente seus talentos e contribuir para uma sociedade mais inovadora e humana.
Embora os primeiros estudos sobre AH/SD no Brasil tenham começado há mais de 70 anos, o tema ainda é cercado por desconhecimento. Muitos estudantes não são identificados, têm suas necessidades educacionais ignoradas e acabam desmotivados por falta de oportunidades compatíveis com seu potencial.
Nesse contexto, a sanção da Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação representa um importante avanço. A nova legislação estabelece diretrizes para identificação, acompanhamento e atendimento especializado, fortalecendo o compromisso com uma educação mais inclusiva.
Ao mesmo tempo, um ponto da lei merece atenção. Ao definir as Altas Habilidades/Superdotação como uma "condição do neurodesenvolvimento", o texto desperta preocupação entre pesquisadores, especialistas e entidades como o Conselho Brasileiro para Superdotação (ConBraSD). O receio é que essa definição desloque a compreensão das AH/SD de uma perspectiva educacional para uma lógica predominantemente clínica, favorecendo interpretações que patologizem aquilo que, na verdade, representa um potencial elevado que precisa ser reconhecido, estimulado e desenvolvido.
Por isso, a implementação dessa política precisa ser construída com diálogo permanente. As melhores soluções surgem quando ouvimos pesquisadores, profissionais, instituições, famílias e, principalmente, as próprias pessoas com AH/SD. Inclusão de verdade também é garantir voz a quem vive essa realidade.
Reconhecer um talento é reconhecer uma pessoa por inteiro. Uma sociedade verdadeiramente inclusiva não é apenas aquela que cria leis, mas aquela que também sabe ouvir as pessoas que essas leis pretendem alcançar.