Nenhum escritor escreve sozinho. Antes de encontrarmos a nossa voz, aprendemos a escutar outras. A minha foi sendo formada pelas páginas de Érico Veríssimo, pela delicadeza de Mário Quintana, pela sensibilidade de Lia Luft e pelo profundo sentimento de pertencimento despertado por Paixão Cortes. Todos eles ajudaram a construir o imaginário da menina que cresceu observando o mundo pela janela.
Mas faltava alguma coisa. Na terra de Lupicínio e de Daiane dos Santos, eu lia aqueles grandes autores e reconhecia a cidade, os ventos, as ruas, o frio, os gestos e as paisagens. O que eu ainda procurava era encontrar também uma menina preta vivendo aquele mesmo cenário. Eu sabia que ela existia. Afinal, essa menina era eu.
Foi desse encontro entre a tradição literária gaúcha e a minha própria memória que nasceu “Histórias da Preta”, lançado na Feira do Livro de Porto Alegre em 1998. O livro não pretendia negar as referências que me formaram. Pelo contrário. Ele dialogava com elas, acrescentando uma perspectiva que durante muito tempo permaneceu ausente da literatura brasileira. Como escrevi: “Fazia muito frio. Eu precisava pôr a luva, o casaquinho marrom de lã e o gorrinho vermelho que se espichava num cachecol. Toda manhã, na hora de ir para o colégio, era preciso cobrir a pele já rachada pelo vento frio e seco. O pior era o nariz que grudava gelado no vidro da janela embaçada, olhando a geada que transformava meu quintal em cristal. Ao anoitecer, era da mesma janela que eu via as estrelas andarem e às vezes correrem de luas gigantes. As noites muito escuras traziam as nuvens de vaga-lume. Pisca aqui, pisca ali, num rastro de puro encantamento. Lembro do meu olhar saindo de trás do vidro da casinha toda verde da rua chamada Serra Azul, com meu nariz sempre à frente e meus pés que não pararam de descobrir ruas novas".
Essa menina caminhava pelas ruas da cidade e carregava consigo perguntas que tantas crianças negras faziam. A questão central de “Histórias da Preta” continua atual: qual é a diferença entre ser uma menina preta e todas as meninas que não são pretas? A resposta nunca esteve em uma essência, mas nas experiências, nas oportunidades, nos olhares e nas histórias que contamos sobre nós mesmos. Por isso o título está no plural. Não existe uma única Preta. Existem muitas histórias possíveis.
A literatura gaúcha me ensinou a amar as palavras. A ancestralidade negra me ensinou particulares maneiras de habitá-las. Entre essas duas heranças, encontrei a minha escrita.