Artigos

Autismo e trabalho numa sociedade que sabe integrar, mas não incluir

Por Maurício de Carvalho Góes, advogado e professor

Recentemente, no mês da conscientização do autismo, diversas foram as manifestações que chamaram atenção para esse tema. Diferentemente de anos atrás, o autismo vem ganhando destaque na sociedade, sobretudo na educação, nas relações de consumo e nas relações de trabalho. Contudo, ainda temos uma sociedade que “engatinha” no tema da inclusão. A ignorância e o preconceito prevalecem e obstam a plena inclusão dos indivíduos atípicos na vida “normal” dos típicos.

Nas relações de trabalho não é diferente. Apesar de existir a obrigação legal para que as empresas cumpram a cota de pessoas com deficiência, em muitos casos não se contratam autistas para trabalhar. Geralmente, as organizações contratam pessoas com deficiências visíveis e, diante das características da neurodivergência, acabam por não assumir o desafio de absorver a mão de obra de uma pessoa autista.

Digo desafio, pois será que o empregador entenderá que um autista saia várias vezes do seu posto, cante ou sacuda as mãos (estereotipia), buscando se organizar diante de um gatilho estressor? Os colegas ajudarão o autista na sua adaptação, sem apelidos e risadas? O empregador respeitará a rotina do autista sem impor quebras repentinas que gerem crises de ansiedade? Haverá compreensão sobre ausências causadas por crises e troca de medicação? A sociedade não está preparada para incluir, mas apenas para integrar.

Não aguardemos a edição de leis específicas que obriguem a contratação de autistas. Façamos uma inclusão constitucional, pois, com base na dignidade da pessoa humana, da igualdade e da cidadania, é possível criar um ambiente humano, empático e inclusivo.