Artigos

Sexta-feira, 6 de fevereiro. Enquanto eu levantei, tomei café, fui à igreja e cumpri agendas na Zona Sul da cidade, uma senhora não conseguia sair da cama. Ela até tentou varrer a casa, mas as fortes dores a fizeram voltar para deitar. Ela convive com a fibromialgia.

Essa mulher trabalha na higienização de uma instituição de saúde. Em muitos dias, trabalhar se torna uma verdadeira tortura. A dor é constante, intensa e, muitas vezes, incapacitante. Há anos, ela busca atendimento médico. Procura um especialista que a escute, que lhe dê atenção, que a respeite. Está exausta, desesperada e com dor. Sua história chegou até mim por meio de áudios enviados no direct das minhas redes sociais.

Minutos depois, recebemos pelo WhatsApp a mensagem de outra senhora, também com fibromialgia, que teve seu direito à prioridade de atendimento desrespeitado em um laboratório da Capital. Mais uma situação de desrespeito. Mais uma entre tantas outras que acontecem todos os dias, muitas vezes de forma silenciosa, sob os olhos de todos.

Escrevo esta carta aberta a Porto Alegre com indignação, mas também com senso de responsabilidade. Indignação ao constatar que nossa cidade ainda não está preparada para reconhecer e respeitar a dor invisível da fibromialgia e de tantas outras doenças. Responsabilidade por entender que é dever do poder público dar atenção a quem sofre e continuar lutando por mudanças concretas.

Milhares de mulheres e homens acordam todos os dias enfrentando dores que não aparecem em exames simples, mas que afetam profundamente suas vidas. Pessoas que lutam para dormir, para levantar da cama com um mínimo de descanso, para tomar um café com a família. Coisas simples, comuns, que só percebemos o valor quando nos faltam.

Vivemos o Fevereiro Roxo, mês dedicado à conscientização sobre o Lúpus, a Fibromialgia e o Mal de Alzheimer. Nesta carta, falo especialmente sobre a fibromialgia não por desmerecer as outras enfermidades, mas porque a vida me colocou diante dessa realidade. Vejo e sinto de perto a dor dessas pessoas. E se dói em mim, que apenas acompanho seus relatos e desafios, imagino o que sente quem carrega essa dor invisível todos os dias.

Porto Alegre precisa abrir os olhos. Precisa acolher quem sente dor. Precisa respeitar quem, muitas vezes, está fazendo um esforço sobre-humano apenas para ficar de pé.

Respeitar a dor invisível é mais do que uma questão de saúde.

É um ato de humanidade.