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Como?

Por Hamilton Mourão, senador da República

A carta do presidente dos Estados Unidos ao presidente da República Federativa do Brasil é inédita na relação entre as duas maiores democracias das Américas. Nunca, mesmo nos momentos mais difíceis do cenário internacional, Brasil e Estados Unidos viveram uma crise bilateral tão grave. Os estragos, reais ou estimados, consumados ou futuros, estão sendo contabilizados e avaliados, enquanto as vozes do bom senso e da moderação tentam se fazer ouvir para que eles não sejam maiores ainda. E eles são bem nítidos. Sabe-se o prejuízo que vão causar em importantes setores da economia nacional e sabe-se muito bem que, ao final, o maior prejuízo será o da população que sofrerá com mais carestia, menos emprego e perda de qualidade de vida; motivos de sobra para uma tomada de contas imediata da grave situação em que se encontra o País.

Como chegamos a esse ponto? Está errado uma potência defensora das liberdades e dos direitos dos povos usar instrumentos comerciais, ou de qualquer natureza, para coagir outro país a aceitar interferência em seus assuntos internos. Está errado um país democrático e pacífico resvalar para práticas autoritárias não constitucionais e se comprometer com ditaduras totalitárias e belicistas com as quais não tem nenhuma afinidade. A proliferação de críticas e explorações sectárias numa troca de acusações estéril só mostra uma coisa: que existe algo muito errado com o Brasil.

A soberania de um país democrático é exercida em nome do povo e não de interesses cartoriais encaminhados por práticas não republicanas. A separação de poderes não se sustenta com alegações teorizantes que são desmentidas por exibições gritantes e despudoradas de compadrio entre autoridades desses poderes. E o dissenso democrático em um grande país não pode ser exercido pelo mandatário de outro. O que de pior acontece a um país vem sempre da mãe de todos os males: a corrupção. É ela a origem imediata da crise que assola o Brasil, deflagrada pelo desmonte da mais bem-sucedida operação de combate à corrupção, o maior caso da história. Com esse revés civilizacional, a esperança de moralização da coisa pública, compartilhada por maciça maioria da sociedade, independente de classe, partido e ideologia, foi estilhaçada por decisões contraditórias, controversas e polêmicas da justiça que lançaram o país em um limbo moral, onde cada vez mais, tudo é permitido.

A partir daí, seguiram-se acontecimentos simplesmente inimagináveis em uma democracia sob a égide do Estado de Direito democrático. Reversões simplesmente inexplicáveis de sentenças judiciais, instrumentalização de instituições de Estado para projetos de poder pessoais e ideológicos, passando pelo descaminho da discussão sã e cívica sobre o aperfeiçoamento do sistema eleitoral, que se consumaram no presente pesadelo político, do qual não há saída à vista. Como acontece a um país importante em uma crise de graves proporções, como é a brasileira, as culpas são amplas, compartilhadas indistintamente ao longo de todo o arco institucional, social, político e ideológico, por ação, omissão ou acomodação. A essa altura, o importante não é mais discutir como chegamos a essa calamidade, mas como sair dela. Reconhecer como inaceitável a situação em que se encontra o Brasil pode ser um bom começo para todos, quem sabe um recomeço. As lições contundentes do passado imediato do país não podem ser esquecidas: a maior delas é a de que o senso comum de continuidade, institucionalidade e responsabilidade está acima de qualquer causa, partido ou interesse.

A carta de Trump para Lula mostrou os riscos a que a atual situação expõe o país. Se, porventura, houve nela algo de positivo, certamente não foi o que os semeadores da discórdia e os oportunistas do caos pretendem. Como tirar o Brasil da situação em que se encontra é a única leitura que os brasileiros dela podem fazer.