Porto Alegre é a capital onde quase metade da população ainda convive com o esgoto passando a céu aberto — ou por baixo, misturado com a água das enchentes que invadem casas, derrubam comércios e levam a dignidade pelo ralo. Em pleno 2025, menos da metade do esgoto da cidade é tratado. Isso não é apenas um problema ambiental. É uma emergência de saúde pública, social e moral. A proposta de concessão parcial do Dmae à iniciativa privada não é um projeto inovador – é um grito de socorro.
Hoje, o Departamento Municipal de Água e Esgotos é um gigante com os pés de barro. Em vez de operar como uma estrutura moderna e eficiente, consome recursos, acumula ineficiências e entrega muito menos do que a população precisa. São mais de R$ 200 milhões desperdiçados por ano, com redes obsoletas, perdas técnicas, obras emperradas e uma cobertura de esgoto que não avança. Isso se traduz em doenças, enchentes, desvalorização urbana e morte. Basta lembrar a enchente de 2024, quando Porto Alegre viu bairros inteiros submergirem diante da completa incapacidade de resposta estrutural. Aquilo não foi um evento isolado – foi um aviso.
A proposta da Prefeitura é objetiva: conceder à iniciativa privada a distribuição de água, expansão de redes, coleta e tratamento de esgoto. Já a captação, o tratamento da água e, principalmente, as ações de drenagem urbana e contenção de cheias seguem sob o controle do poder público. Em outras palavras, a gestão continua sendo da cidade, mas com eficiência, metas, fiscalização e investimentos garantidos. E o mais importante: o contrato pode gerar R$ 3,7 bilhões em investimentos ao longo de 30 anos. Isso é o que pode finalmente permitir que Porto Alegre trate 100% do seu esgoto e invista em obras estruturantes que salvam vidas.
Esses recursos são a oportunidade que a cidade precisa para tirar do papel projetos como a reestruturação do dique do Sarandi, a construção de novas casas de bombas, a ampliação da rede pluvial no 4° Distrito, a criação de reservatórios de contenção e a modernização de todo o sistema de drenagem urbana. São obras fundamentais que a cidade precisa urgentemente e que foram adiadas por falta de dinheiro. Com a concessão, Porto Alegre não apenas corrige o passado – mas se protege do futuro.
Quem resiste à proposta costuma repetir os mesmos mantras de sempre: que é privatização, que vai encarecer a tarifa, que é entregar o patrimônio público. Nada disso resiste aos fatos. O controle segue sendo municipal, o contrato será regulado e fiscalizado e o interesse público continua sendo o eixo da política. O que muda é a capacidade de entregar resultado. Negar essa concessão é, no fundo, defender um modelo que fracassou, que deixou metade da cidade sem saneamento básico e exposta às próximas enchentes.
Porto Alegre não precisa de discursos ideológicos. Precisa de obras. De infraestrutura. De dignidade. A concessão do Dmae é uma decisão técnica, necessária e urgente. Não é sobre esquerda ou direita – é sobre água tratada, esgoto recolhido, bairros protegidos e vidas salvas. Se a cidade ainda quer um futuro, ela precisa começar por aqui.