A Copa do Mundo de 2026 é o primeiro grande evento esportivo realizado sob as novas regras das apostas esportivas no Brasil, país que ocupa a posição de quinto maior mercado global das chamadas “bets”. A regulamentação trouxe algum controle ao setor, mas não resolveu a principal questão: é legítimo incentivar uma atividade de alto risco financeiro em um país marcado pelo endividamento recorde e pela baixa educação financeira?
Hoje, mais de 70% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida. Mesmo assim, as plataformas de apostas ampliam diariamente sua presença nas redes sociais e nas transmissões esportivas, quase sempre associadas à ideia de lucro fácil e diversão. Milhões de pessoas, já pressionadas pelo orçamento, passaram a ser expostas, de forma massiva, a uma atividade baseada no impulso e no prejuízo.
A regulamentação criou exigências importantes, como autorização para funcionamento das empresas, identificação de usuários e regras mínimas de operação. Também abriu espaço para aplicação mais clara do Código de Defesa do Consumidor. Ainda assim, seguem frequentes as reclamações sobre bloqueios de contas, dificuldades para saque de valores e ausência de atendimento eficiente.
O papel do Direito, nesse contexto, é equilibrar uma relação claramente desigual. De um lado, plataformas altamente estruturadas e com forte capacidade de influência. De outro, usuários muitas vezes sem informação adequada sobre consequências, perdas e funcionamento das apostas. O objetivo é impedir que a liberdade econômica se sobreponha ao equilíbrio da relação de consumo.
A Copa deve servir como um alerta para os limites do atual modelo regulatório das bets no Brasil. Apostas esportivas não podem ser tratadas apenas como entretenimento ou oportunidade econômica. O país precisa avançar em fiscalização, controle da publicidade e políticas de prevenção ao superendividamento. Caso contrário, haverá o risco de consolidar um mercado sustentado pelo consumo impulsivo e pelo agravamento da inadimplência. Os impactos sociais dessa expansão já começam a aparecer.