Temos diante de nós um grande desafio enquanto coletividade: recolocar a educação no lugar que ela deveria ocupar. Fazer da escola um depositário de todas as responsabilidades de formação de uma criança significa sobrecarregar uma instituição que, sozinha, não consegue responder à complexidade das demandas atuais. São múltiplos olhares, diferentes tempos, expectativas, atribuições e compromissos que já consomem integralmente o trabalho de educadores e gestores.
Como diretora do Colégio Santa Inês, instituição com 80 anos de história, pergunto: não está mais do que na hora de, como sociedade, abrirmos espaços de diálogo para refletir sobre esse fenômeno? Vamos realmente acreditar que a escola fracassou sozinha? Estou certa de que, para educar um estudante, é necessária uma comunidade inteira. Infelizmente, não é isso que vivenciamos em nosso cotidiano escolar.
Mais uma vez, somos chamados a analisar historicamente os resultados do Brasil no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), que evidenciam desempenhos insuficientes em habilidades básicas de Leitura, Matemática e Ciências. Esse cenário foi agravado pelos impactos da pandemia e pelas profundas desigualdades sociais que marcam nosso país.
Mesmo conscientes dessas condições, é preciso refletir sobre a quantidade de demandas que vêm sendo agregadas ao currículo proposto pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), sob responsabilidade exclusiva da escola. Além das atribuições acadêmicas essenciais, espera-se que a instituição promova ações de saúde mental, programas socioemocionais, atue no enfrentamento da violência, implemente projetos de cidadania digital, previna o cyberbullying, prepare os estudantes para o mercado de trabalho, discuta inteligência artificial e seus desafios, acolha situações familiares complexas, entre tantas outras exigências.
Diante desse contexto, acredito que é tempo de repensarmos a escola e suas atribuições. Precisamos refletir sobre os rumos que estamos tomando diante dessa exigência de respostas a questões que deveriam ser compartilhadas com outras esferas da sociedade. Não há escola, professor ou gestor autossuficiente o bastante para dar conta, sozinho, de tantos desafios e focos distintos.
Educar sempre foi uma tarefa coletiva. Quando a sociedade transfere integralmente essa responsabilidade para a escola, fragiliza o próprio processo educativo. Se, de fato, queremos formar cidadãos críticos, éticos, competentes e preparados para o futuro como cidadãos globais, será necessário reconstruir uma rede de corresponsabilidade na qual cada instituição assume seu papel. Afinal, para educar uma criança ou um jovem, não basta uma escola. É preciso uma comunidade inteira comprometida com esse propósito.