Artigos

Entre a rotina, a retina e os golpes digitais: o paradoxo da inteligência artificial

Por GIL KURTZ, vice-presidente do Fórum Latino-Americano de Defesa do Consumidor

Ninguém tem dúvida de que a Nova Era Digital e a IA transformaram profundamente as relações de consumo. Por um lado, as novas tecnologias ampliaram o acesso a bens e serviços como nunca antes. Por outro lado, expuseram o cidadão a riscos inéditos e sofisticados. Há cerca de cinco anos, eu escrevia sobre como o novo mundo digital exigia das marcas uma governança rigorosa para proteger sua reputação nas redes sociais. Citando o jornalista Mario Rosa, lembrei que “há um novo mundo entre as nossas rotinas e a nossa retina”.

Hoje, essa máxima ganha contornos muito mais urgentes. A retina contemporânea já não lida apenas com deslizes de comunicação de grandes marcas, mas sim com uma enxurrada diária de fraudes hiper-realistas. Entramos na era dos golpes digitais em escala industrial. Do outro lado da tela, existem indivíduos que dormem, acordam e passam o dia inteiro pensando em como utilizar a inteligência artificial para enganar. O paradoxo atual é alarmante: a mesma tecnologia capaz de otimizar a medicina e a educação é utilizada para clonar vozes de familiares solicitando dinheiro, forjar vídeos perfeitos (deepfakes) e outros tantos golpes.

Diante desse cenário desafiador, que será amplamente debatido no III Seminário Consumo Consciente, promovido pelo Fórum Latino-Americano de Defesa do Consumidor e Correio do Povo, que acontecerá no próximo dia 17 no Plenarinho da Assembleia Legislativa do RS com o tema “Navegando entre golpes e dívidas”, o objetivo não será o de combater a IA. A tecnologia veio para ficar.

A grande questão reside em saber de qual face da moeda estamos falando: a IA pode ser a solução ou o problema, dependendo de quem a comanda. Para que ela seja uma aliada, nós, consumidores, precisamos redobrar a atenção e desconfiar do que parece perfeito ou urgente demais. No fim das contas, a tecnologia sozinha não nos salvará do abismo ético. A verdadeira blindagem contra a fraude nasce da união de forças. É a inteligência natural humana somada à capacidade técnica da IA que deve cuidar dessa proteção. Somente o fator humano poderá garantir que o mundo entre as nossas rotinas e as nossas retinas seja um espaço de prosperidade e não uma armadilha digital permanente.