Vivemos um capítulo inusitado de nossa complexa trajetória política. A instabilidade institucional, os embates entre os poderes da República e a dificuldade de articulação governamental revelam não apenas falhas estruturais, mas também a persistência de um traço cultural profundamente enraizado, o jeitinho brasileiro. O antropólogo Roberto DaMatta, em suas análises sobre a sociedade brasileira, descreve o jeitinho como uma forma de conciliar regras impessoais com relações pessoais. É a habilidade de contornar normas sem necessariamente rompê-las, apelando à simpatia, à criatividade ou à influência. Para ele, o jeitinho é uma resposta à rigidez das instituições, uma tentativa de humanizar o sistema, ainda que às custas da legalidade.
No cenário atual, esse comportamento transcende o cotidiano e se infiltra na política em todos os níveis, do municipal ao federal. As reformas, votações, emendas, distribuição de obras e de recursos públicos são cada vez mais marcadas por negociações informais e trocas de favores, o que ilustra como o jeitinho se tornou ferramenta de governabilidade. Tudo isso sob o olhar atento de uma população cada vez mais cética. O jeitinho, no entanto, não é apenas sinônimo de corrupção. Ele também representa a capacidade de adaptação diante da escassez, da burocracia excessiva e da desigualdade. É o brasileiro que improvisa para sobreviver, que encontra soluções onde o Estado falha. Entretanto, quando essa lógica se torna regra, ela compromete a construção de instituições sólidas e transparentes.
Essa ambiguidade cultural se reflete também nas relações sociais, pois o jeitinho é celebrado em piadas, exaltado em novelas e tolerado nas pequenas infrações do dia a dia. Ao mesmo tempo, é condenado quando se transforma em privilégio ou favorece os mais influentes em detrimento dos mais vulneráveis. Essa dualidade revela um país que ainda não conseguiu definir com clareza os limites entre astúcia e desonestidade.
Em um país que busca protagonismo internacional, na presidência do Brics ou na organização da COP30, é urgente repensar o papel do jeitinho. Ele pode ser expressão de criatividade, mas não pode substituir a ética pública. Como diria DaMatta, é preciso entender o Brasil não apenas pelo que ele é, mas pelo que ele insiste em ser. E talvez seja hora de deixar o jeitinho como memória cultural, não como prática política.