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Há 80 anos, a cobra fumou em Monte Castelo

Por Salus Loch, jornalista, escritor e coordenador da Casa da Memória Unimed Federação/RS

Entre os anos de 1944 e 1945, mais de 25 mil militares da Força Expedicionária Brasileira (FEB) cruzaram o Oceano Atlântico para se juntar ao esforço Aliado no combate ao totalitarismo na Europa. O Brasil foi o único país latino-americano a enviar tropas para combater durante o maior conflito armado da história, a Segunda Guerra Mundial.

Sob o céu gélido de 21 de fevereiro de 1945, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) hasteou sua bandeira em Monte Castelo, na Itália, nos estertores da Segunda Guerra Mundial. A montanha, antes um bastião nazista, agora via tremular o verde-amarelo, selando um marco na história nacional. Comandados pelo marechal gaúcho Mascarenhas de Moraes, os pracinhas, auxiliados por caças da Força Aérea, enfrentaram – e venceram – o inverno e a resistência alemã.

"A cobra vai fumar!"

O mote rebelde e provocativo, gerado da incredulidade quanto ao envolvimento brasileiro na guerra, queimou as dúvidas como pólvora e tornou-se um talismã, bordado nos ombros junto com a figura da cobra fumante que representava a determinação dos combatentes. Tal envolvimento, diga-se, teve seu ponto de partida em 1942, quando o país – “estimulado” pelos EUA – declarou guerra à Alemanha e Itália em resposta à pressão popular, após o afundamento de navios mercantes brasileiros por submarinos nazistas.

No total, 437 brasileiros – de um total de 25.334 que lutaram no Velho Mundo – tombaram em ação. Quanto aos que retornaram, infelizmente, o heroísmo não se traduziu em políticas públicas. A batalha, para muitos, continuou.

Hoje, 42 veteranos seguem entre nós, todos na casa dos 99 aos 107 anos; mais lembrados na Itália do que aqui.

Entre os sobreviventes está o capitão Elmo Diniz, cuja juventude em meio às verdes pastagens de Cruz Alta, onde atuava como tropeiro ao lado do pai, foi substituída pelo mergulho nas estratégias e logística das campanhas europeias. Aos 103 anos, Diniz se torna poeta de sua própria história, recordando o feito heroico de Monte Castelo, enfatizando a importância tática da vitória e a rendição, em 30 de abril de 1945, da 148ª divisão alemã, uma lembrança que ressoa como um hino pessoal no crepúsculo. Apesar dos triunfos, ao lado da esposa Eunice, ele esbraveja com o canto da boca: “A guerra é a maior estupidez do gênero humano”.

A fim de manter viva a memória do capitão Elmo Diniz e dos expedicionários, a capital dos gaúchos deve receber, no segundo semestre de 2025, uma exposição em honra ao 80º aniversário da volta da FEB ao Brasil. Um tributo tardio, mas necessário, àqueles que, sob o lema da cobra fumante, escreveram um capítulo de bravura na história do país.