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Madame Clicquot não pediu licença para liderar. No início do século XIX, na França, a jovem viúva Barbe-Nicole Ponsardin precisou enfrentar a Justiça para manter viva a vinícola da família após a morte do marido — comandar um negócio, na época, era uma tarefa formalmente negada às mulheres pela lei e pelos costumes. Contra todas as expectativas, ela resistiu, inovou e construiu um legado que perdura até hoje sob a marca Veuve Clicquot. Sua trajetória revela algo ainda atual: a exclusão feminina da liderança nunca foi sobre capacidade, mas sobre estrutura.

Dois séculos depois, seguimos diante do mesmo desafio. Embora os contextos tenham evoluído, a essência do problema permanece. Segundo o Evermonte Institute, apenas 19,5% dos cargos executivos em empresas familiares brasileiras são ocupados por mulheres. Mesmo capacitadas e engajadas, as herdeiras ainda não são vistas como sucessoras naturais.

A proximidade entre fundadores e filhos homens, somada a uma cultura patriarcal persistente, reforça esse desequilíbrio. Muitas mulheres da família — mães, esposas, irmãs — desempenharam por décadas papéis fundamentais nos bastidores, mantendo a harmonia e os valores do negócio. Ainda assim, sua contribuição raramente foi reconhecida como liderança legítima.

O paradoxo é evidente: empresas mais diversas tendem a ser mais inovadoras, sustentáveis e cooperativas. Conselhos plurais tomam decisões mais equilibradas e sensíveis à gestão de riscos. O mercado também já entendeu isso. A B3 exige que, até 2026, empresas listadas tenham ao menos uma mulher e uma pessoa de grupo sub-representado em sua liderança. Diversidade deixou de ser um ideal ético — é uma exigência econômica.

Essa mudança exige mais do que discurso. Exige ação. A sucessão deve ser planejada com antecedência, oferecendo às herdeiras espaço real para se prepararem, participarem das decisões e liderarem com legitimidade. Afinal, liderança não é herança, é construção.

O Rio Grande do Sul, com sua tradição empresarial e força das empresas familiares, pode ser protagonista dessa virada. O tempo da dúvida já passou: as herdeiras estão prontas. Resta saber se as empresas também estão dispostas a inovar, confiar e transformar essa nova liderança em vantagem competitiva sustentável.