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Hospital São Pedro: o risco de terceirizar

Por RICARDO NOGUEIRA, coordenador do Núcleo de Psiquiatria do Simers

Quando se fala em terceirizar o Hospital Psiquiátrico São Pedro, é preciso entender o que está em jogo além dos números.

O São Pedro não é apenas um serviço de internação psiquiátrica. É um dos poucos lugares no Brasil em que assistência, ensino e pesquisa coexistem dentro de um mesmo hospital público. Seu programa de residência em psiquiatria forma especialistas com padrão de excelência reconhecido nacionalmente. Hoje, 31 residentes aprendem ali o que não se aprende em sala de aula: a complexidade real do sofrimento mental. E isso se reverte em cuidado com as pessoas.

O ambulatório atende em torno de 1.500 pacientes por mês, com transtornos graves, muitos deles sem outra porta de entrada no sistema. Os 140 leitos autorizados para internação representam uma retaguarda indispensável para as emergências psiquiátricas de Porto Alegre, emergências que o próprio Simers já precisou defender contra o fechamento apressado e desconectado dos interesses da sociedade.

A pesquisa com novos antipsicóticos em curso no hospital é outro ativo que não aparece nas planilhas, mas que tem impacto direto no tratamento de pacientes de todo o Estado.

A terceirização, dependendo do modelo adotado, pode fragmentar esse ecossistema. Gestores privados respondem a lógicas diferentes das que orientam uma instituição de ensino e pesquisa de referência. Metas de eficiência econômica e metas de saúde pública nem sempre apontam para o mesmo lugar.

O Simers defende o diálogo. Mas defende, antes, que se preserve o que o São Pedro representa: décadas de construção de um cuidado especializado que o mercado, sozinho, não teria interesse em financiar.