Artigos

Humildade para (re)construir

Por Gilberto Jasper, jornalista

“O bom senso nunca está nos extremos, mas sempre no meio termo.”

O ensinamento de meu falecido pai, repetido à exaustão nos meus tempos de guri e adolescente, vale ouro nesta época de reconstrução. Vivemos tempos extremos não apenas nos termos climáticos. A incompreensão diante do conceito de democracia levou à radicalização onipresente, na qual os limites do discernimento mínimo são ignorados.

A guerra entre “ecochatos/xiitas da ecologia” versus “ecocríticos/negacionistas” precisa de um período de trégua para evitar novas tragédias. Impõe-se chamar à responsabilidade todos que contribuíram para a eclosão da calamidade das águas. Aqueles que deveriam honrar compromissos assumidos através de mandato popular e aqueles que sequer fazem a separação do lixo ou que jogam entulho em qualquer lugar. A culpa coletiva deve levar à reflexão dos deveres de cidadão e de autoridades.

É utópico acreditar que as três esferas do poder promoverão ações integradas para potencializar as estruturas que cada um sustenta com recursos advindos de nossos impostos. A guerra de vaidades, turbinada pelo ano eleitoral, constitui terreno fértil da proliferação de manchetes que são factoides jamais concretizados.

Desde setembro de 2023, data da primeira enchente histórica no Vale do Taquari, até hoje, nenhuma casa foi sequer iniciada por iniciativa do poder público. Com a ocorrência da terceira tragédia em oito meses, que assolou 90% do território gaúcho, as repetidas promessas geram mais revolta que esperança pelos antecedentes marcados pela frustração.

Apesar do pessimismo, existe o sonho do surgimento de um político ou autoridade com descortino para promover novidades técnicas ou viabilizar a convergência de interesses capazes de salvar vidas. “Salvadores da pátria” são quimeras incapazes de gerar soluções concretas e só ampliam a revolta popular.

Seria ingênuo acreditar na “união sincera” de todos com poder para recuperar o nosso Rio Grande. Há muitos interesses envolvidos neste “caos gaudério” sem precedentes que gerou enorme depressão. Mesmo assim, é hora de apostar no mínimo de sensibilidade, humanismo e empatia com quem perdeu patrimônio, entes queridos e até motivos para viver nesta sucessão de tragédias.