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Inteligências artificiais e relações artificiais

Por Roberto Decker, psicólogo e professor da Faculdade de Psicologia do CEFI

Quando você precisa de acolhimento e de escuta, quem você busca? Quando quer ajuda para refletir ou mudar, onde procura? Podemos contar com familiares ou amigos; já outras conversas cabem melhor na terapia. Outras pessoas, no entanto, preferem a Inteligência Artificial (IA) e esse é um debate fundamental a se fazer neste 27 de agosto, Dia do Psicólogo.

As IAs “generativas”, que criam textos ou imagens a partir de prompts, são invenções promissoras, capazes de beneficiar a humanidade de formas ainda imprevisíveis. Naturalmente, há também riscos e necessidade de debate. Por exemplo, faz sentido usar a IA como psicóloga(o) ou psicoterapeuta?

As IAs que conhecemos são modelos computacionais que imitam processos humanos. Não são capazes de empatia ou pensamento crítico. E pode haver acolhimento sem empatia? Pode haver reflexão sem pensamento crítico? Se você já bateu papo com uma IA, notou que ela costuma concordar com tudo que é dito e raramente fica em dúvida. É mais fácil receber uma resposta errada do que um sincero “não sei”. Isso pode fortalecer interpretações distorcidas e inflexíveis da realidade. Além de não ter atenção para sutilezas nem manejo adequado para situações delicadas, a IA não tem responsabilidade ética ou profissional sobre suas respostas. Em casos raros, porém emblemáticos, a IA já foi observada incentivando suicídio e pensamentos delirantes.

Além desses riscos, pode-se alimentar uma ilusão: “relacionar-se” com a IA significa acreditar que é possível ter os benefícios de uma relação sem os riscos e as imperfeições de uma relação. Pense em uma pessoa com quem você tenha tido conversas importantes. Pode ser um familiar, um professor, um amigo, um amor, um terapeuta… Lembre-se das pequenas sensações ao longo da conversa: curiosidade? Medo? Impaciência? Compreensão? Esses sentimentos são reações normais e necessárias para as relações humanas. Sentir-se julgado, por exemplo, é uma experiência praticamente universal entre nós, inclusive quando não estamos sendo julgados. Coragem para se expressar e empatia por quem tenta se expressar são fundamentais para construir relações significativas. É na imperfeição das interações – no silêncio constrangedor, na ambiguidade do olhar, na difícil escolha das palavras – que nos desenvolvemos, inventamos e encontramos. Relações transformadoras, como buscamos em uma boa terapia, são também imperfeitas e é necessário que assim sejam.