Artigos

Lições do bebê alemão de Pomerode

Por Marcello Beltrand, consultor em Relações Institucionais

A noção de cidadão remonta à Grécia Antiga, onde a participação política em cidade-estado como Atenas emergiu a partir do século V a.C. Com os romanos, o conceito evoluiu ao incluir direitos e deveres. Ao longo dos séculos, diversas culturas e os pensadores do Iluminismo moldaram os ideais modernos de cidadania.

Ser cidadão envolve engajamento cívico e inclusão social, participação na esfera pública, pertencimento através dos direitos e responsabilidades e coesão social. Sentir-se cidadão fortalece a conexão com a sociedade, promove uma maior responsabilidade coletiva e serve de sustento à democracia.

Por outro lado, o identitarismo tem impactado a sociedade, a política e a cultura. Entre esses impactos estão a fragmentação social e o tribalismo, que enfatizam diferenças entre grupos em detrimento da coesão social, geram polarização e dificultam o diálogo com os diferentes. Logo, a supressão do indivíduo em favor do grupo sublinha as identidades coletivas em detrimento da autonomia individual.

Além disso, promove a distorção do debate público ao priorizar narrativas identitárias sobre argumentos racionais e princípios universais. Fomenta o cancelamento e a intolerância ao dissenso, censura vozes discordantes dentro e fora dos grupos identitários, o que trava a discussão de ideias baseadas em mérito e lógica.

O saldo revela a instrumentalização política desses movimentos, que são empregados como ferramentas de manipulação eleitoral, conduzindo à formulação de políticas públicas baseadas em critérios identitários, em vez de atender às reais necessidades dos cidadãos.

Quando se encorajam políticas de diferenciação com base em identidade geram-se novas formas de exclusão e um tipo de discriminação reversa perpetuando ressentimento e ciclos de conflito. A cidadania, ao contrário, nos unifica sob o manto dos filhos de uma mesma nação, enquanto a militância identitária obscurece e ignora problemas estruturantes como pobreza, corrupção, censura e desigualdade – estes, sim, com elevado impacto em todos os grupos sociais.

É esse ruidoso pano de fundo que explica as críticas nas redes sociais à mãe de Pomerode, SC, que apenas se orgulhou de seu bebê alemão, como faria qualquer mamãe negra, polaca, índia ou japonesa. Sim, o mundo anda para trás também.