Recentemente, passamos pelo pior desastre climático do Estado. Diversos resíduos e entulhos deixados pelas enchentes no Rio Grande do Sul poderiam ter melhor aproveitamento. A solução encontrada pelo Estado e pelas prefeituras — de encaminhá-los para aterros temporários — foi compreensível diante da emergência, mas insuficiente por vários motivos. Primeiro, esses espaços não têm infraestrutura adequada para receber resíduos, o que é um risco ambiental enorme. São entulhos de demolição junto com materiais orgânicos e recicláveis que precisam de tratamento especial ou que podem ser reaproveitados.
A maneira como países desenvolvidos têm lidado com esses volumes de lixo é por meio de usinas de reciclagem, biodigestores ou por Unidades de Recuperação Energética (UREs), instalações que convertem resíduos sólidos urbanos em energia elétrica por meio de processos controlados de combustão.
Essas usinas podem processar mais de 850 toneladas de resíduos por dia e gerar em média 20 MW de energia, o suficiente para abastecer uma cidade de 320 mil pessoas. E queimam tudo de uma vez, com emissões controladas e monitoradas. Isso tem um custo, mas os benefícios a médio e longo prazos são imensos. Para as empresas do setor viabilizarem uma URE no RS, precisaríamos de ao menos duas garantias: um volume mínimo de destinação de resíduos contratado e a comercialização da energia gerada na planta. Um consórcio de municípios resolveria a primeira etapa. Para a segunda, a União poderia antecipar leilões de energia no Estado, incentivando o setor a avançar com projetos já em gestação.
É viável, estratégico e ambientalmente responsável. A ideia não é substituir aterros sanitários por tecnologias como essa, mas agregá-las ao processo como uma forma de transformar os rejeitos finais em energia.
Dos resíduos sólidos urbanos podemos gerar materiais reciclados para retornarem à cadeia produtiva, biogás para alimentar motogeradores de energia ou para gerar o biometano como alternativa de gás sustentável para alimentar as industriais ou o setor de transporte. Momentos de crise como esse testam nossa capacidade de reação, mas dão a oportunidade de avançar em áreas essenciais para o bom funcionamento e segurança das cidades. Com vontade de fazer diferente, podemos transformar nossos resíduos em verdadeiras fontes sustentáveis de geração de valor para o Estado.