Fins dos anos setenta, início da década de oitenta, uma geração de mulheres ingressou na magistratura gaúcha, até então composta exclusivamente por homens, cuja aceitação foi com muitas ressalvas e sob olhares de desconfiança: mulher juíza? Absurdo! Mas as mulheres desta geração enfrentaram o preconceito, o prejulgamento, e disseram a que vieram. Exerceram suas funções com galhardia, empenho, coragem e competência. Barreiras foram derrubadas, não sem dificuldades.
A carreira não exigia apenas dedicação e esforço da mulher juíza, cobrando de sua família, se casada fosse, o preço de seus deveres, lembrando que o padrão familiar não era igual para homens e mulheres, não sendo incomum que a mulher, dependente do marido, o acompanhasse em suas andanças. O inverso, nem nos dias de hoje, prevalece.
A resistência não era só interna, vinda de todos os lados: destinatários da jurisdição não se conformavam: eu ser julgado por uma mulher? Subordinados nem sempre acolhiam pacificamente as ordens ínsitas ao exercício do cargo. Os olhares da sociedade se dividiam entre admiração, curiosidade e resistência: até quando isso vai durar?
Não só durou, como se expandiu! Quem apostou o contrário, perdeu. No último censo realizado pelo CNJ, em 2024, o número de mulheres na magistratura nacional era de 36,8% ao todo e 41,68% no primeiro grau, ou seja, os tribunais ainda resistem às mulheres.
A misoginia, e não o difícil mister de julgar, foi o obstáculo maior que essas precursoras enfrentaram e venceram, abrindo caminhos para mais mulheres no judiciário, mas a luta pela paridade continua. Prova disso, o CNJ instituiu política nacional de incentivo à participação feminina no Judiciário, combatendo preconceitos de origem, raça, sexo, cor e outras formas de discriminação.
Obrigada, desembargadora Sandra, há pouco falecida, por teres participado de forma ímpar e com méritos desta trajetória que prossegue. Teu nome, junto com os de tantas outras, merece ser lembrado e tua ação aplaudida. Tua passagem não foi em vão, deixando uma marca, contribuindo para um tribunal mais plural, pleno e humano.