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Não invejo ninguém – nem os comuns, tampouco os célebres. Vivos ou mortos. No fim das contas, somos e seremos todos iguais. Uns com mais brilho, outros com mais sombra, mas, essencialmente, a mesma massa – com ou sem ovos, com ou sem glúten.

Porém não consigo a mesma indiferença diante dos necrológios, publicações de óbitos ou elogios fúnebres, dedicados a notórios falecidos.

O tema, ainda que perfeitamente evitável, intriga-me deveras – talvez porque revele mais sobre os vivos do que sobre os mortos – normalmente virtuosos e bons em essência.

Com frequência quase ritual, vejo na grande mídia – essa velha raposa amiga das conveniências – uma sucessão de nênias dedicadas a personalidades que, até o momento da despedida, passavam despercebidas. Não raro, o feito mais notável do homenageado resume-se à coautoria de uma obscura canção ou à criação artística de algum objeto exótico ou sucata, apreciado pela crítica especializada.

Invariavelmente o fulgurante anônimo pranteado em prosa e verso tem breve passagem por movimentos ideológicos ou assemelhados e viveu às custas do erário, recebendo bolsa-terrorista por atos insanos em “defesa da democracia”.

Há, portanto, um curioso mínimo denominador comum entre as súbitas celebridades póstumas agraciadas pelos noticiários calhordas.

Não que a posição política de alguém devesse definir o valor de sua vida ou obra – longe disso.

O problema é que a comoção surge seletiva, mal disfarçada, dirigida apenas aos que se alinham a determinada narrativa conveniente ao poder ocasional.

Pelas deformidades congênitas, mesmo que sinceras, as distinções póstumas acabam caindo na vala comum da mediocridade vigente e transformam o luto em conveniência rasa.

“Do pó viestes, ao pó retornarás” (Gênesis 3:19). Mais cedo ou mais tarde, todos nos igualaremos no ventre da mãe terra.

Por essas ou outras, quando chegar a minha vez, dispensarei qualquer elogio, qualquer reverência, de qualquer calibre ou projeção.

Será melhor desfrutar do cômodo anonimato e do merecido descanso – que procurei a vida inteira e que talvez, finalmente, encontre.