No Brasil, o poder ainda tem rosto, voz e comportamento predominantemente masculinos. Essa constatação não nasce de uma disputa entre homens e mulheres, mas da observação de uma realidade: os espaços onde se decidem os rumos do país, das empresas, das entidades, da política e das instituições seguem ocupados, em sua maioria, por homens.
Mas por quê?
A resposta começa na história. Durante muito tempo, as mulheres foram educadas para cuidar, servir, silenciar e sustentar a base da família, enquanto os homens foram estimulados a liderar, decidir, ocupar espaços e exercer autoridade. A menina cresceu ouvindo que precisava ser comportada; o menino, que precisava ser corajoso. A mulher aprendeu a pedir licença; o homem a tomar espaço.
Mesmo quando as mulheres passaram a estudar mais, trabalhar, empreender, chefiar famílias e sustentar economicamente suas casas, o poder formal não acompanhou essa transformação na mesma velocidade. Hoje, elas são decisivas na economia, na educação, no cuidado, na gestão da vida cotidiana e na reconstrução das famílias. Ainda assim, quando olhamos para os cargos de comando, seguem sub-representadas.
O poder continua masculino porque muitas estruturas foram desenhadas por homens e para homens. As redes de influência, os ambientes de articulação, os códigos de liderança e até a forma como se reconhece competência ainda carregam uma lógica masculina. Muitas vezes, a mulher precisa provar repetidamente sua capacidade para ocupar um espaço que ao homem é concedido com mais naturalidade.
Há também um julgamento desigual. Quando um homem deseja crescer, é visto como determinado. Quando uma mulher deseja liderar, pode ser chamada de dura, difícil ou ambiciosa demais.
Outro fator é a sobrecarga. A mulher conquistou o mercado de trabalho, mas não foi plenamente liberada da responsabilidade pelo cuidado da casa, dos filhos, da família e dos afetos.
O Brasil perde quando afasta mulheres do poder. Perde talento, sensibilidade, competência, visão prática e capacidade de transformação. A presença feminina nas decisões não é uma pauta apenas das mulheres; é uma necessidade da democracia, da economia e do desenvolvimento.
Mais do que substituir uma liderança pela outra, o que se defende é uma visão compartilhada entre homens e mulheres. Cada um, com suas características, experiências e formas de perceber o mundo, contribui para decisões mais equilibradas, humanas e completas.
O poder ainda é masculino porque a cultura e as estruturas favoreceram os homens por muito tempo. Mas essa realidade não é destino. É construção.
As mulheres já provaram sua força. Agora, precisam ser reconhecidas como protagonistas das grandes decisões.