A história política recente do Brasil não se escreve sem o sotaque gaúcho. Da redemocratização ao início dos anos 2020, o Rio Grande do Sul sempre manteve lugar cativo e decisivo na mesa onde se tomam as grandes decisões do país. Quem passa os olhos pelos governos Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro percebe um padrão claro: ministros vindos do Sul não apenas ocupavam cadeiras, mas comandavam pastas de orçamento robusto e altíssimo poder político, como Casa Civil, Justiça, Agricultura, Educação, Fazenda e Transportes.
Nomes como Nelson Jobim, Paulo Brossard, Eliseu Padilha, Odacir Klein, Pratini de Moraes, Francisco Turra, Tarso Genro, Olívio Dutra, Yeda Crusius e Onyx Lorenzoni — para citar alguns de diferentes espectros ideológicos — simbolizaram uma bancada capaz de projetar o Estado no topo da República. O clímax dessa presença, claro, deu-se com a própria chegada de Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto.
No entanto, o cenário atual escancara um esvaziamento inédito.
Hoje, a presença do Rio Grande do Sul no primeiro escalão do governo federal reduziu-se drasticamente. O Estado, no atual mandato, contou em Brasília com a figura de Paulo Pimenta, titular da Secretaria de Comunicação Social. Porém, o Rio Grande do Sul perdeu o comando de ministérios temáticos e executivos de grande impacto direto em infraestrutura, desenvolvimento e economia.
Esse encolhimento é capricho da iminente preferência partidária ou reflete uma mudança estrutural. A lógica do presidencialismo de coalizão atual passou a priorizar a entrega de pastas estratégicas a lideranças do Nordeste e do Sudeste, onde se concentram os maiores colégios eleitorais e as bases mais fiéis da atual gestão.
O Rio Grande do Sul, que, por décadas, foi fiador da governabilidade e formador de quadros nacionais, hoje assiste ao jogo da arquibancada do poder central. O RS não possui bons quadros para auxiliar o Brasil? Os líderes políticos gaúchos não têm a confiança dos donos do poder? A provocação que fica para nossas lideranças locais, da esquerda à direita, é evidente: até quando o Estado aceitará a condição de figurante na Esplanada dos Ministérios?