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O centro do oportunismo

Por GUSTAVO VICTORINO, dep. estadual, advogado e jornalista

Vamos combinar que, para ser de direita ou de esquerda, você não precisa gostar de Bolsonaro ou do Lula.

Mas de onde vem, então, o tal centro democrático, expressão cunhada pelo oportunismo de utilizar o que as duas ideologias têm de bom e sorrateiramente criticar o que ambas têm de ruim?

Esse conceito nasceu de uma análise enviesada de contenção de extremismos, que serve apenas para justificar o conforto de não ser questionado e, ao mesmo tempo, deter o poder de criticar tudo e todos com a total liberdade de se dizer de centro.

Esse escapismo, que foi criado pela classe política como uma ferramenta para se posicionar sempre com o conforto da falsa isenção, ganhou força com a polarização ideológica do país ao longo da última década.

Expressões como extrema-esquerda ou extrema-direita têm um caráter genérico e muito mais depreciativo do que factual, mas criaram o campo fértil para o surgimento de uma classe de políticos que não assume posturas lineares e claras em relação ao que acontece de bom ou de ruim em nosso país.

Uma reflexão teatral e postura conflitante tenta dar a entender uma capacidade de moderação que, no fundo, serve apenas a objetivos claros de aproveitamento da circunstância ou de fatos relevantes que não guardam possibilidades genéricas de contestação. Obviedade é a palavra-chave para os profissionais da política centrista, ou seja, nada de comprometimentos que representem obstáculos para subir novos degraus.

O momento político brasileiro fez nascer um conceito que cresce no seio do jornalismo, que sutilmente mostra arrependimento de alguns pelo apoio dado à construção de um país corrupto e sem lei em que se transformou o Brasil.

Tentativas constrangedoras de buscar moderação fizeram crescer a covardia de não se posicionar quando o que mais a opinião pública precisa é exatamente saber com quem e com o que está lidando.

Novos e velhos partidos surgem por trás de uma cortina de centro democrático, habitados por raposas que tentam, desesperadamente, ficar perto da chave do cofre e dele usufruir em benesses nem sempre claras e de interesse público.

Somos o fruto de nossas posições, opiniões e ações, mas, quando nesse tripé sentimos a falta da coerência, o resto se torna “nuvem passageira que com o tempo se vai” (alô, Hermes Aquino).

Moderados na esquerda ou na direita, ou extremados nos dois polos, com ou sem ídolos, são transparentes e se encontram no debate, nas cobranças e nas suas posições sobre temas polêmicos.

O “centro democrático” nunca estará lá porque não corre riscos e, quando participa, usa a obviedade e o simplismo para não dizer nada.

A política precisa, cada vez mais, de atitude e a nascente da covardia ideológica acaba não representando ninguém, senão seus próprios interesses.