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O coração não pode esperar: o tempo como decisão de gestão no SUS

Por CLAUDIO R. MENDONÇA VITTI, médico, CEO e Diretor Médico da Associação Saúde em Movimento (ASM)

"Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida." Provérbios 4,23.

No infarto, a sentença é clínica. Na rede, é de gestão

O coração que o texto bíblico pede para guardar não é só o órgão ameaçado pela oclusão coronária. É o centro das decisões. É dali que procedem as escolhas: o mapa da macrorregião, o destino da transferência, o plantão da madrugada, o indicador que decidimos olhar e o que preferimos ignorar. Regionalizar o serviço de hemodinâmica, portanto, não começa na sala de cateterismo. Começa na vigilância sobre essas decisões. Sem elas, o aparelho existe e o paciente continua longe demais, tarde demais.

Um infarto não espera a reunião de regulação, a fronteira do município nem o consenso que ficou para a próxima CIB. Reconhecer o quadro, registrar o eletrocardiograma, definir a reperfusão e fazer a pessoa chegar ao serviço capaz de realizá-la: nessa ordem, e em tempo. Quando qualquer elo falha, a distância deixa de ser geográfica. Torna-se uma questão de sobrevivência.

Essa responsabilidade pesa mais num Brasil que envelhece. O Censo 2022 registrou 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais: 10,9% da população, 57% a mais do que em 2010. Viver mais é conquista. Preparar a rede para o infarto que acompanha essa longevidade ainda não é.

O que os números não mostram

Internação, incidência e prevalência não medem a mesma coisa. As internações por infarto no SUS cresceram na última década, e a letalidade hospitalar recuou. Notícia boa e incompleta. Não conta quem morreu antes de chegar, quem chegou fora da janela, nem o abismo entre macrorregiões. O que interessa à gestão é outra pergunta: a rede oferece o tratamento certo, no tempo em que ele ainda muda o prognóstico, onde as pessoas realmente vivem?

As diretrizes são claras. No infarto com supra de ST, a angioplastia primária é a estratégia de escolha quando o acesso ocorre em tempo adequado. Quando não ocorre, pacientes elegíveis precisam de fibrinólise e transferência, não de espera. A hemodinâmica só cumpre o seu papel se estiver amarrada ao SAMU, às portas de entrada, à regulação e à retaguarda. Sala isolada é capacidade instalada. Não é linha de cuidado.

O Ministério da Saúde já nomeou isso há mais de uma década, na Rede de Atenção às Urgências e na Linha de Cuidado do Infarto. O problema, a esta altura, não é a ausência de norma. É a distância entre a portaria e o percurso real do paciente.

Guardar o coração, para quem dirige o SUS, é recusar a omissão disfarçada de complexidade. É não tratar o infarto como um problema do hospital de referência quando o desfecho se decidiu uma hora antes: na UPA sem ECG, na ambulância sem destino, na regulação sem vaga.

Defendo que o planejamento regional da hemodinâmica se apoie em cinco compromissos:

Primeiro: desenhar o acesso pelo tempo real de deslocamento, não pelo limite do município. População, estradas, transporte e capacidade dos hospitais. Se a angioplastia não chega na janela, o protocolo de fibrinólise precisa estar escrito e treinado antes da emergência.

Segundo: tratar SAMU, UPA, hospitais e centros de hemodinâmica como um sistema só. Protocolo comum, ECG precoce, regulação imediata e telecardiologia onde o especialista não está presente. Sem diagnóstico no primeiro contato, o paciente segue para o hospital mais próximo, não para o mais adequado.

Terceiro: garantir resposta contínua, não escala de segunda a sexta. Equipe, material, leito, sobreaviso e financiamento compatíveis com a urgência. Expandir serviço sem volume e sem retaguarda é aproximar o equipamento e afastar a qualidade.

Quarto: pactuar destino, critério e acionamento com nome e horário. Referência no papel da CIB não basta se, às duas da manhã, ninguém sabe quem abre a sala. Tempo-dependente ou é prioridade operacional, ou é retórica.

Quinto: medir o que o paciente recebeu, não só o que a unidade produziu. Volume de angioplastia é produção. O painel da rede precisa de atraso até a reperfusão, acesso na janela, mortalidade ajustada ao risco e continuidade após a alta, inclusive de quem mora longe. Se a média melhora e o interior ou o turno da noite não melhoram, a média está escondendo o fracasso.

O tempo como indicador de gestão

Nada disso dispensa prevenção e acompanhamento na atenção primária. Alta sem vínculo só empurra o segundo infarto para o mês seguinte.

O Brasil já sabe o que fazer. O que falta, em muitos territórios, é tratar o tempo como indicador de gestão, não como efeito colateral da geografia.

Gestores do SUS: organizem hoje os fluxos. Encurtem o caminho entre o paciente com infarto e o tratamento que ainda pode salvá-lo. O coração não pode esperar. E a decisão de guardá-lo, no sentido clínico e no sentido ético, é nossa.