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O crédito fácil de hoje pode ser a conta de 2027

Por ANTONIO MANSUR, economista

O trabalhador ainda não recebeu o salário de 2027, mas parte dele já foi gasta. Esse é o paradoxo do Crédito do Trabalhador: uma ferramenta que pode aliviar o peso das dívidas também pode transformar renda futura em consumo presente.

O crédito, por si só, não é um problema. É essencial para financiar investimentos, facilitar o consumo e movimentar a economia. A questão é como ele é usado. Trocar o rotativo do cartão por um consignado, com juros menores, faz sentido. O risco aparece quando, depois de quitar o cartão, o trabalhador volta a utilizá-lo e passa a acumular duas dívidas. Crédito é uma transferência de consumo no tempo: permite comprar hoje com a renda de amanhã. Para quem já está endividado, porém, isso reduz a capacidade de escolha no futuro.

Duas famílias com renda de R$ 5 mil podem viver realidades muito diferentes. Se uma delas já compromete R$ 1 mil com parcelas, seu salário disponível é menor. Multiplicada por milhões de famílias, essa situação deixa de ser apenas um problema doméstico e passa a afetar o consumo e a própria economia. É por isso que 2027 merece atenção.

Em 2026, a eleição será marcada por promessas. Depois dela, o próximo governo encontrará restrições concretas: inflação, juros, dívida pública e resultado fiscal. Mesmo com a queda da Selic, os juros ainda são elevados. E o Banco Central acompanha a capacidade de pagamento das famílias porque o excesso de endividamento limita o consumo e aumenta o risco de inadimplência. Há uma ligação direta entre as decisões de Brasília e o orçamento das famílias. Se o risco fiscal aumentar, os juros futuros podem subir, o câmbio sofrer pressão e os financiamentos ficarem mais caros.

A política fiscal chega à prestação do carro, ao financiamento da casa e ao cartão de crédito. O Crédito do Trabalhador será positivo se reduzir o custo das dívidas e ajudar a reorganizar as finanças. Será perigoso se apenas abrir espaço para novos empréstimos e novo consumo. O cenário de 2027 dependerá das escolhas feitas após a eleição. Responsabilidade fiscal, juros menores e recuperação do poder de compra formam um cenário favorável.

O contrário significa crédito caro, consumo menor e crescimento fraco. Governos mudam nas urnas. As contas não. E a economia de 2027 já está sendo construída pelas decisões financeiras tomadas hoje. A pergunta é: quanto da renda de amanhã estamos dispostos a gastar hoje?