Os indicadores tradicionais caem. As coletivas celebram. A sensação de controle parece ganhar corpo, tirante os feminicídios, ainda alheios a qualquer narrativa otimista. Mas o crime diminuiu ou apenas mudou de território?
Houve um tempo em que, na capital gaúcha, registravam-se mais de 30 furtos e roubos de veículos a cada 24 horas. Hoje, não chegam a 10. A redução é real. Foi construída com inteligência policial e investigação qualificada. Negar isso seria injusto. O erro está em supor que o crime encolheu.
Parte relevante dessa criminalidade não desapareceu. Migrou. E ganhou escala no ambiente digital. Fraudes bancárias, golpes por WhatsApp, clonagem de perfis e invasões de dispositivos operam sem fronteiras e com alcance massivo.
Governos argumentam que os números digitais não cresceram tanto. A leitura é conveniente e incompleta. Crimes virtuais convivem com subnotificação estrutural. Em algumas modalidades, ela pode ultrapassar 90%. Recebemos diariamente e-mails falsos, SMS fraudulentos e links maliciosos. Quase ninguém registra tentativa frustrada. O boletim surge apenas quando há prejuízo relevante. O que não vira dano expressivo subjaz na estatística, mas não deixa de existir.
O novo crime se estrutura sobre engenharia social aplicada ao comportamento humano. Não depende de violência física; depende de convencimento. Uma imagem conhecida. Um nome familiar. Uma urgência fabricada. A vítima não é descuidada, é conduzida.
A história oferece um paralelo discreto. A vacina contra a varíola surgiu em 1796. No Brasil, já havia previsão legal de vacinação obrigatória em 1837, mas a imunidade coletiva demorou décadas para se consolidar. Leis existiam, proteção efetiva não.
No ambiente digital ocorre algo semelhante. O direito avançou. A Lei 12.737/2012 criminalizou a invasão de dispositivos. O Marco Civil organizou a guarda e o acesso a registros telemáticos. A LGPD elevou o patamar da proteção de dados. Mas lei não é vacina instantânea. Sem método e cadeia de custódia, o comando normativo permanece no papel.
Os números podem cair nos relatórios. Mas, se o crime apenas trocou a rua pelo algoritmo, comemorar cedo demais é erro de diagnóstico. Porque a nova epidemia não está nos vírus do sistema. Está na vulnerabilidade humana e ela ainda não desenvolveu imunidade coletiva.