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O dilema da escala 6x1

Por ANTONIO MANSUR, economista

Apesar do viés político que naturalmente envolve o debate sobre o fim da escala 6x1, a questão econômica central contrapõe dois fatores; bem-estar do trabalhador e produtividade. Os defensores da redução da jornada argumentam que trabalhadores mais descansados podem produzir mais por hora, além de movimentar setores ligados ao lazer, serviços e consumo.

A visão mais cautelosa, porém, alerta para uma equação simples; se as horas trabalhadas diminuem sem aumento proporcional da produtividade, a produção tende a cair ou as empresas precisarão contratar mais trabalhadores e ampliar o pagamento de horas extras. O resultado pode ser aumento de custos, preços e pressão inflacionária. No Brasil, o problema ganha complexidade diante da baixa produtividade média e da elevada informalidade.

De um lado, jornadas extensas podem comprometer qualidade de vida, saúde e desempenho profissional. De outro, uma redução obrigatória da jornada, sem medidas compensatórias, pode atingir principalmente micros e pequenas empresas, que possuem menor capacidade para absorver novos custos. As experiências internacionais mostram que não existe solução automática. Chile e Colômbia adotaram reduções graduais da jornada, estabelecendo períodos de adaptação.

O ponto relevante não é simplesmente copiar esses modelos, mas compreender que mudanças dessa magnitude exigem transição, previsibilidade e ganhos de eficiência. O cerne da discussão, portanto, não está na intenção social da proposta, mas na matemática de sua execução. Em uma economia fortemente baseada em serviços e intensiva em mão de obra, uma mudança abrupta pode transferir custos ao pequeno empresário e, posteriormente, ao consumidor. Reduzir a jornada pode representar avanço social, mas precisa caminhar junto com uma agenda de produtividade.

Educação, qualificação profissional, infraestrutura, tecnologia, simplificação tributária e redução do custo de contratação são instrumentos capazes de elevar o valor produzido por hora trabalhada. O verdadeiro desafio brasileiro não é apenas decidir quantas horas devemos trabalhar, mas criar condições para que cada hora trabalhada produza mais valor.

Sem produtividade, uma boa intenção pode se transformar em aumento de custos e informalidade. Com produtividade, trabalhar menos e produzir mais deixa de ser promessa e passa a ser uma possibilidade econômica real.