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O direito ao tempo na revisão do Plano Diretor

Por MARCOS FELIPI, vereador de Porto Alegre

O debate sobre o Plano Diretor de Porto Alegre parece restrito a técnicos e gabinetes, mas decide algo íntimo a cada cidadão: quanto tempo do seu dia será roubado pelo deslocamento. Em “Ordem sem Design”, o urbanista Alain Bertaud afirma que as cidades são, antes de tudo, grandes mercados de trabalho. Quando o planejamento ignora essa lógica, pune quem mais precisa de oportunidade.

Nossa capital enfrenta o desafio do espraiamento urbano. Quando dificultamos a construção de moradias em áreas que já possuem infraestrutura e serviços, empurramos famílias para regiões cada vez mais distantes. O resultado é o que Bertaud descreve como um limite crítico para a dignidade humana. Quando o trajeto de ida e volta ao trabalho supera uma hora, o custo físico e financeiro do deslocamento faz com que muitos simplesmente desistam de procurar emprego. O cansaço e o tempo improdutivo anulam o benefício do salário e roubam o convívio familiar.

O novo Plano Diretor tem o desafio de derrubar as barreiras que tornam a moradia inacessível onde o emprego está. Por décadas, um zoneamento excessivamente rígido impediu que a Capital se adaptasse de forma orgânica às necessidades de quem nela vive. Se o trabalhador não consegue morar perto de onde as oportunidades surgem, a cidade trava e a desigualdade aumenta. Uma família que, um dia, recebe a chave do seu apartamento em local distante e sem infraestrutura e, no dia seguinte, cai na realidade de viajar horas até chegar ao trabalho ou à escola, conhece bem esta realidade.

Porto Alegre precisa crescer de forma incremental e inteligente. Incentivar a densidade nos eixos de transporte e simplificar as regras de uso do solo para que a habitação caiba no bolso do cidadão e se multipliquem locais que concentram pessoas, empregos, serviços e qualidade de vida.

Estamos falando de trocar o planejamento que desenha a vida das pessoas de cima para baixo por uma gestão focada na mobilidade eficiente e na oferta de habitação. Devemos escolher entre manter Porto Alegre engessada em modelos do passado ou permitir que ela volte a ser uma cidade de encontros e facilidades. Inspirados pela ideia de que a ordem urbana nasce da liberdade de movimento, nossa meta é devolver ao porto-alegrense o seu bem mais precioso, que é o tempo.