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O enigmático Chile

Por Francisco Turra*

Muitas vezes, confesso que tive inveja do Chile. Durante as observações e visitas aos supermercados pelo mundo, me inconformava com a ausência de produtos brasileiros nas gôndolas, ao mesmo tempo em que via massivamente os itens do país andino. Os vinhos chilenos estrategicamente posicionados – assim como em nossas adegas - e as suculentas frutas em destaque. Os pescados também atraíam os apreciadores mais apurados. Sentia-me diminuído. Quando era ministro da Agricultura, comentava com a equipe que não havia lógica de ver nossos produtos ausentes, com tanta diversidade e qualidade. 

Nas diversas viagens àquela nação, tinha a sensação de paz organizada, construção, ordem, criatividade. Concluí que, realmente, o Chile era um país modelo, o mais exitoso da América Latina. Apenas os chilenos não percebiam que eram referência e, assim, acabaram aceitando um discurso que se negava a reconhecer o progresso, o crescimento e o próprio bem-estar do povo. 

A inflação de 550% caiu para 10%, entre 1973 e os anos 90. Neste século, chegou a 5%. A pobreza foi de 45% para 8%, de 1980 a 2014. O ingresso de investimentos externos foi o mais elevado entre todos os países no mesmo período. Protecionismo não encontra porto seguro em terras chilenas. Apesar de relativamente pequeno em população, mantém abertura econômica com 35 países que representam 90% do PIB mundial — enquanto o Brasil tem acordo com apenas cinco, sem peso significativo no mercado global. Ao todo, 64% dos chilenos passaram à classe média, e a pobreza extrema caiu de 35% para 2,5% dos andinos. Números excepcionais. E em termos de cultura, também é um país exemplar. No entanto, sem fundamento aparente, o destino perfeito se transformou. Tudo foi esquecido. As revoltas e movimentos armados mostraram uma outra face do país, inimaginavelmente diferente. Numa virada histórica, a nação — já comparada à Suécia e Noruega — passou a ser uma pequena Líbia. Inacreditável!

Agora, surgiu a "fórmula mágica": uma nova Constituição. A velha, pelas suas origens, foi tida como imprestável. A simples elaboração de uma nova Carta se apresenta como um milagre. Mas na realidade, essa transformação aproximará o Chile de um futuro incerto, com um modelo social descomprometido com sua própria história. Certamente, a mudança provocará outros países a se aventurarem. Que a racionalidade seja retomada, evitando que o desastre se concretize.

*Ex-ministro da Agricultura e presidente do Conselho Consultivo da ABPA