Choca – e deve chocar – a sequência de feminicídios no Brasil. 2025 foi ano "recorde" de feminicídios no país, sendo 90% deles cometidos por companheiros ou ex-companheiros (dados do Mapa Nacional de Violência de Gênero).
Recentemente, escutei um triste diagnóstico no rádio: "O Brasil está acostumado a escândalos". O que isso diz dos homens autores de tais assassinatos? Talvez seja preciso nos perguntarmos quais são os ideais que sustentam a masculinidade. Pesquisas recentes apontam a possibilidade de efeito copycat com o noticiamento de feminicídios, podendo corroborar com a divulgação de metodologias e, pior, o estabelecimento de um imaginário masculino. Quando dizemos, por exemplo, que "todo homem é igual", criamos, ao mesmo tempo, uma ferramenta de denúncia e um lugar de legitimação de masculinidade, mesmo que em sua pior versão possível.
Ao mesmo tempo, pesquisas com os grupos reflexivos, feitas com homens autores de agressão contra mulheres, também apontam para uma tímida melhora no quesito reincidência, mas com a ausência de índices de melhora em relação ao machismo e à misoginia.
Como podemos criar condições de possibilidade de divulgação de masculinidades não pautadas pela agressão, potência ou conquista? Não se trata de pensarmos em homens melhores. Afinal, pensar em "melhorias" é o que sustenta no imaginário social um lugar análogo à dominação masculina: ser melhor e maior do que o outro e seu desejo – no caso, ignorando a vontade ou não de mulheres que desejam outras coisas ou outros relacionamentos.
A ideia talvez seja abrirmos mão da armadilha da busca em sermos homens "melhores" e buscar formas de ideais e de relação que não necessitem da posse como garantia de uma identidade masculina. Quais? Responder a isso pode nos levar à tentação de criar um novo imperativo da masculinidade. É preciso fazer perguntas, compartilhar fraquezas, fazer um rompimento passar pela palavra e pelo encontro com nossos pares. Que a dor seja falada para não ser projetada em projéteis. Afinal, por que temos números crescentes de violência de gênero mesmo havendo uma quantidade relevante de políticas e ações educativas e reparativas? Como esperar mudanças sem tocarmos no tema dos ideais que sustentam as posições masculinas? O caso Jeffrey Epstein, por exemplo, deflagra uma abertura ao debate de um escândalo com o qual não podemos nos acostumar. Porém, concomitantemente, também parece indicar uma idealização masculina ao escancarar as faces da impunidade.