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O sacrifício de brasileiros repousa sob o El Cristiano

Por PAULO UBIRAJARA MENDES, coronel da reserva do Exército Brasileiro

O governo brasileiro pretende devolver o canhão El Cristiano ao Paraguai, um erro histórico que ultrapassa a diplomacia e fere de morte a preservação da memória nacional. A iniciativa, que avançou após o episódio de verborragia governamental, agora é apresentada como prova de boa vontade entre países amigos, ignorando o significado desta peça histórica que integra o patrimônio do Brasil há quase 150 anos. Não se trata apenas de um antigo canhão, o El Cristiano é um troféu de guerra conquistado pelo sangue de muitos brasileiros em um dos episódios mais marcantes da história sul-americana, a Guerra da Tríplice Aliança.

O conflito, ocorrido entre 1864 e 1870, mobilizou centenas de milhares de homens, provocando imenso sofrimento humano em todos os países envolvidos. A guerra, para o Brasil, exigiu enormes sacrifícios materiais e custou a vida de milhares de bravos soldados gaúchos que combateram em condições adversas, longe de sua terra e suas famílias. O El Cristiano foi capturado nesse contexto, sendo então incorporado ao acervo histórico do Brasil, onde materializa o testemunho da participação do povo brasileiro no conflito.

A devolução do canhão parte de uma premissa equivocada, qual seja, a exigência da transferência de bens históricos incorporados ao patrimônio de outro país como reparação simbólica. Se esse entendimento fosse aceitável, inúmeros museus do mundo teriam seus acervos submetidos a revisões. Armas apreendidas em combate, bandeiras capturadas, aviões, embarcações, documentos e objetos militares preservados por séculos passariam a ser alvo de disputas intermináveis.

A questão é séria, pois talvez trate da proposital fragmentação da memória histórica e descaracterização de valores construídos ao longo de gerações. Mais grave ainda é o fato de que a devolução parece responder muito mais às circunstâncias políticas atuais do que às exigências da preservação histórica. Defender a permanência do canhão no Brasil não significa cultivar ressentimentos contra os irmãos paraguaios, pois a verdade é que construímos, nas últimas décadas, uma relação sólida de cooperação econômica, militar e energética, sendo Itaipu o maior exemplo dessa parceria.

Patrimônio nacional não é instrumento para administrar crises diplomáticas, pois governos são transitórios e a história é permanente. Portanto, decisões que afetam símbolos de uma nação precisam ser tomadas com cautela, levando em consideração seu impacto para as futuras gerações e após amplo debate.

A amizade entre os dois povos não pode depender da renúncia a elementos fundamentais de suas respectivas memórias nacionais. A verdadeira reconciliação não se faz apagando vestígios do passado, faz-se sim compreendendo, estudando e preservando a história.

O El Cristiano é um símbolo da guerra e de nosso valor militar. Sua presença em território nacional jamais representou celebração da vitória e tampouco humilhação dos vencidos. Trata-se da justa e silenciosa homenagem de um povo agradecido aos milhares de brasileiros que combateram e pereceram naquele conflito.