A escalada da violência contra profissionais da saúde deixou de ser um alerta e passou a ser um sintoma evidente de um sistema em colapso. O crescimento de 83% nos registros de agressão, com mais de uma centena de casos em um único ano no Rio Grande do Sul, revela um cenário que não pode mais ser tratado como exceção, mas como rotina institucionalizada.
Há uma tendência perigosa de personalizar o problema, como se o conflito estivesse restrito à relação entre paciente e profissional. Não está. A agressão é fruto de um ambiente estruturalmente fragilizado, em que superlotação, longas esperas, equipes reduzidas e ausência de segurança criam um campo fértil para a explosão de violência.
O trabalhador da saúde torna-se o elo mais exposto de uma cadeia que falha. Ele é quem recebe a pressão de um sistema que não responde na velocidade necessária e, por isso, acaba sendo responsabilizado por um problema que não criou. É uma distorção grave e recorrente.
Os dados também evidenciam um recorte preocupante: mais de 80% das vítimas são mulheres. Isso escancara a naturalização da violência contra quem ocupa funções historicamente associadas ao cuidado.
O impacto vai além do momento da agressão. Há efeitos diretos na saúde mental, no afastamento de profissionais e na evasão da carreira. A consequência é um sistema ainda mais fragilizado, que perde capacidade de resposta e compromete o atendimento à população.
Do ponto de vista jurídico, a resposta precisa ser firme. A responsabilização de quem agride é medida necessária, tanto na esfera penal quanto na civil. Mas não é suficiente. Quando há omissão na oferta de condições mínimas de segurança, o próprio Estado e as instituições também devem responder.
Proteger quem cuida não é um gesto simbólico. É um requisito básico para a manutenção de qualquer sistema de saúde que se pretenda funcional. Ignorar isso é aceitar que a violência faça parte da rotina. E isso, definitivamente, não pode mais ser tolerado.