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O vazio da superexposição

Por Egui Baldasso, jornalista e escritor

Começou com a viagem incrível. A vista e o nosso prazer em estar lá. Depois, o prato mais bonito do que gostoso, mas que valia o clique. Logo, dois ou três momentos do dia. Com frustrações mascaradas, claro. O que valia era o nosso melhor lado do rosto.

E veio a amiga, a família, a corrida. A necessidade de dar aos outros o que poucos pareciam se interessar. Pedaços da própria vida. Choros e risos se confundindo. O que valia era se escancarar. Caras e bocas em uma câmera vazia, mas no celular mais moderno do mercado. Tudo para fazer alguém parar e nos notar, sem saber se com alegria ou, quase sempre, torcendo para que caíssemos do balanço lindo da imagem.

A guerra perdida para a superexposição. Pudera. Uma palavra comprida e feia como esta já nasce com todas as chances de vitória sobre nós, mortais e carentes, que nem sabemos direito como escrevê-la. Parece até que tem erro na grafia, que sobram letras, falta encaixe. E traduz um mundo doente há bastante tempo, mas que agora caminha para vergonhas incuráveis.

Chegamos ao cúmulo de nos gravarmos aos prantos, em destemperos que jamais deveriam sair de casa ou de consultórios de psicólogas e psiquiatras. Para o nosso próprio bem. Mas, num cenário de completa ausência de noção do ridículo, externamos em alta definição dores que não cabem aos outros. E isso, me desculpem os avalistas de destemperos alheios, é triste demais. Porque ninguém estará lá quando a realidade, também vazia, chegar. E ela chega bem rápido.

Mostramos o corpo, desdenhamos da dignidade. Abrimos mão do anonimato que dá liberdade. O que não abrimos mão é de compartilhar até fatalidades, que costumam performar bem nas redes. Tudo vai para todos. Ficamos com o nada em troca. E seguimos nos expondo.

Não à toa, percebemos que quem menos se mostra, mais paz respira. Quem desaparece das telas, vive mais fora delas. Felicidade e tristezas divididas no que realmente importa. E que a superexposição, além de uma palavra pra lá de feia, fica muito melhor longe de nós.