A câmara vai fechando nos olhos de Gilberto Gil que se abrem em florestas. No final, o clipe é um início, um recomeço do possível: podemos “ser refloresta”. Por mais importante que seja manter o que ainda se tem de vegetação nativa, já não basta “que alguém virá derrubar o que resta, o jeito é convencer quem devasta a respeitar a floresta”. Sob a chamada “é hora de ser #Refloresta”, o Instituto Terra está lançando uma campanha que pretende ir além do alerta sobre o desmatamento, até porque urge não apenas frear a devastação, mas recuperar e revitalizar as áreas degradadas.
O chamamento para a “reflorestação” ecoa da RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural) Fazenda Bulcão, territorializada no Vale do Rio Doce e reverbera horizonte afora. Uma onda de potência regenerativa poderá se fazer ampliar a cada árvore plantada, a cada gota de água brotada, a cada zumbir de inseto, a cada nascimento e a todas as possibilidades vitais. O movimento, quem sabe, tomará conta do planeta e nos abraçará com os braços da corresponsável solidariedade coletiva. Nos envolverá como a árvore que ainda viceja ao nosso lado. Sonho? Utopia?
Como estamos necessitados de sonhos e utopias! Se importantes como balizas do possível, há que se fazer próximos estes mesmos desejos. A árvore junto a nós é um universo. Como continuar aceitando o tumor gangrenoso das motosserras, o ranger das máquinas ou a “quase” silenciosa ação devastadora que hoje tira uma árvore e amanhã mais uma, mais outra. Como comungar com as feridas da terra tornada nua?
Dos olhos para as mãos. Da percepção visual que nos inunda os olhos ao esforço braçal pela preservação e regeneração. Tudo de corpo inteiro, no esforço de todos, na usufruição reciprocal de todas as existências. A natureza nos enche os olhos e dá vigor às mãos que “florestam”.
*Geólogo naturalista, ex-secretário Estadual do Meio Ambiente do RS