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O Brasil começa a sentir, na prática, os efeitos de uma transição energética conduzida sem alinhamento com a realidade física dos sistemas elétricos. Cortes de geração, excesso de oferta em determinados horários, redes saturadas e restrições a novas conexões já fazem parte do cenário, revelando limites que não podem ser ignorados pelo planejamento setorial.

O debate ganhou projeção global recentemente após o discurso do presidente dos Estados Unidos no Fórum Econômico Mundial, em Davos. Ao criticar a geração eólica e os excessos das energias verdes, Donald Trump foi rotulado como negacionista climático. Ainda assim, por trás da retórica política, existe um ponto técnico que merece análise mais cuidadosa, especialmente pelo Brasil.

A crítica não é à energia renovável em si, mas ao modelo de expansão desordenada, dissociado da realidade dos sistemas elétricos. Países como a China lideram o mundo em capacidade instalada de energia solar e eólica, dado usado para justificar políticas agressivas, embora essas fontes sigam minoritárias na geração efetiva e irrelevantes como energia firme.

Na prática, a segurança energética chinesa permanece ancorada em térmicas, hidrelétricas e nucleares, com solar e eólica atuando de forma complementar. Trata-se de engenharia e planejamento, não de orientação ideológica. A Europa seguiu caminho oposto, reduziu sua base firme e passou a conviver com volatilidade de preços, dependência externa e instabilidade.

O Brasil parte de uma condição singular, com matriz elétrica historicamente limpa e forte presença hidrelétrica, mas optou por importar o modelo europeu. Nos últimos anos, estimulou a expansão acelerada de solar e eólica, especialmente na micro e na minigeração distribuída, com subsídios prolongados e sem alinhamento com a capacidade das redes e do sistema interligado.

O problema não é tecnológico nem climático, mas regulatório. A transição energética é necessária, mas não pode ser conduzida como slogan. Sistemas elétricos seguem limites físicos e operacionais, e ignorá-los significa repetir erros já conhecidos e caros.