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Outubro mais que rosa

Por CAROLINE SCHIRMER F. PEREIRA, cirurgiã-dentista e epidemiologista

Outubro chega e, com ele, o rosa toma conta das cidades. Prédios iluminados, laços e milhares de mensagens lembrando a importância da saúde feminina. E isso é importante. Muito importante. O câncer de mama continua sendo um dos maiores desafios da saúde pública. Para cada ano do triênio 2026–2028, o Inca estima 78.610 novos casos no Brasil. São números que justificam prevenção, rastreamento, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento. Mas talvez seja justamente durante o Outubro Rosa que devêssemos fazer uma pergunta: estamos falando de tudo o que deveríamos falar quando o assunto é a saúde da mulher?

Existe um número que costuma aparecer menos nas campanhas, mas que é muito prevalente e que pode ser divulgado quando se fala em saúde da mulher. Em 2023, mais de 182 mil mulheres morreram por doenças cardiovasculares no Brasil. Infarto, AVC e outras doenças relacionadas estão entre as principais causas de morte feminina. E existe uma contradição na forma como enxergamos a saúde das mulheres: quando pensamos em uma mulher doente, lembramo-nos do câncer. Quando pensamos em infarto, ainda é comum imaginar um homem. Mas o coração também adoece nas mulheres. E mata.

Falar de saúde cardiovascular é falar de prevenção, hipertensão arterial, diabetes, colesterol, alimentação, atividade física, tabagismo, álcool, sono e saúde mental. É falar de acompanhamento contínuo, falar de autocuidado, de atividades de promoção à saúde e não apenas de procurar o serviço de saúde quando alguma coisa já está alterada. Por isso, talvez o Outubro Rosa possa ser mais do que uma campanha sobre exames. Pode ser uma oportunidade para ampliar o olhar e cuidar da mulher como um todo. Que a mulher faça sua mamografia e mantenha seu acompanhamento ginecológico. Mas que também conheça seus fatores de risco para doenças cardiovasculares e cuide daquilo que muitas vezes fica para depois: ela mesma.

Porque uma mulher não é apenas uma mama que precisa ser examinada. Ela tem um coração. E tem uma vida inteira que precisa ser cuidada. Que o rosa continue. Mas que o nosso olhar também se amplie. Porque cuidar da saúde da mulher é também olhar para as doenças que mais matam – e criar condições para que ela viva mais e melhor.